Antes
de iniciar a conversa com ISTOÉ, o presidente Lula mostrou que estava disposto
a dar uma entrevista reveladora. “Vamos combinar o seguinte: podem fazer
qualquer pergunta, por mais inconveniente que pareça”, disse ele ao ocupar a
cabeceira da comprida mesa de reuniões no seu gabinete improvisado no Centro
Cultural Banco do Brasil. “Vamos adotar o seguinte: é probido proibir”,
afirmou.
E
assim foi. Animado, coloquial e bem-humorado, Lula falou por quase duas horas
com a equipe de ISTOÉ, sem recusar nenhum tema proposto. Em dois momentos
mostrou um especial estado de espírito. Primeiro um largo sorriso quando
recebeu de um assessor, durante a entrevista, os dados da última pesquisa
Sensus/Ibope que dava 10% de vantagem à sua candidata Dilma Rousseff sobre o
oposicionista José Serra. Pouco depois, o presidente ficaria com o olhos
marejados quando falava dos principais legados que julga deixar para o País:
“Hoje os pobres sabem que podem chegar lá.”
ISTOÉ – O sr. deixa o Planalto como o presidente mais popular da
história do País. Como pensa em administrar esse patrimônio depois de sair do
governo? Luiz
Inácio Lula da Silva – O meu medo é tomar uma atitude precipitada sobre o que eu vou fazer.
Montar alguma coisa e depois de seis meses descobrir que não era aquilo. Então,
eu acho que alguém que deixa o mandato, como vou deixar, numa situação graças a
Deus muito confortável, tem que dar um tempo de maturação. Preciso de um tempo,
quem sabe quatro, cinco, seis meses. Tem que deixar a Dilma construir um
governo que seja a cara dela, do jeito dela, e eu ficarei no meu canto,
curtindo o fato de ser um ex-presidente da República.
ISTOÉ – Isso é possível, presidente? Lula – O Felipe González
(ex-primeiro-ministro da Espanha) contou-me uma história que eu faço questão de
repetir. Ex-presidente é que nem aquele vaso chinês que você ganha de presente.
Você não sabe onde colocar o ex-presidente. Ele passa a ser incômodo se não se
tocar que é um ex-presidente. Essa é a parte mais séria da história. Quero dar
um tempo maior. O que eu pretendo fazer? O acúmulo de acertos nas políticas
sociais que nós tivemos no Brasil precisa ser socializado. Eu quero socializar
essas políticas com os países da América do Sul, do Caribe, com os países
africanos. Eu já tenho muitos convites de países africanos para ir lá e mostrar
a ideia e o que nós fizemos. Mas é para ir lá com tempo, para ir a campo.
ISTOÉ – O sr. fará as caravanas internacionais, então? Lula – Eu não sei se serão as caravanas
como as que eu fazia aqui no Brasil. Mas pretendo construir uma equipe de
companheiros que acumularam oito anos de experiência no governo e 30 anos de
experiência enquanto oposição, para que a gente tente colocar em prática, junto
aos governantes dos países mais pobres, as condições de eles terem uma política
de desenvolvimento social.
ISTOÉ – É preciso ter um cargo para isso, como o de presidente do
Banco Mundial? Lula – Não. É só a vontade política.
ISTOÉ – Mas vários governantes falam de seu nome para ocupar um
organismo internacional multilateral. O que o sr. acha disso? Lula – Tenho companheiros que falam,
olha Lula você vai para a ONU. Eu tenho uma ideia diferente. Acho que a ONU é
uma instituição que tem que ser dirigida por um burocrata, que tenha a
consciência de que ela é subordinada aos presidentes dos países. Porque se você
coloca alguém lá, que, por coincidência, tenha mais força que alguns
presidentes, haverá, no mínimo, uma anomalia. Você fica com uma instituição
criada para servir os países com gente mandando mais. Imagine se a moda pega e
os ex-presidentes americanos resolvem ser secretário-geral da ONU.
“Quando Dilma veio para a Casa Civil percebi que eu estava diante de um animal político não
trabalhado”
“Devo muito do sucesso do meu governo ao Palocci. Talvez
pela qualidade de médico, de não sentir a dor que
sente o paciente, ele manejava a economia com a maestria que um economista não
teria”
ISTOÉ – Mas o sr. recusaria um convite nessa direção? Lula – Eu recusaria. Recusaria essa
coisa de Banco Mundial. Eu tenho consciência do seguinte: tenho 64 anos e
quando deixar a Presidência vou ter 65 anos, logo ainda tenho uma contribuição
política para dar ao País. Eu sonho com a construção de uma frente ampla no
Brasil. Juntar as forças políticas aqui, construir um programa comum, fazer a
reforma partidária, que acho que é uma condição sine qua non para a gente poder
mudar em definitivo o Brasil. Temos que fazer a reforma partidária. Isso não é
coisa de presidente da República. Isso é coisa dos partidos políticos. E eu, de
fora, pretendo ajudar o meu partido a organizar os outros partidos em torno da
ideia da reforma política.
ISTOÉ – O projeto de um instituto para irradiar essas ideias também
está em curso? Lula – Também está em conta. Mas agora estou
com a minha cabeça voltada para o seguinte: tenho mais cinco meses de governo.
Tem muita coisa para acontecer, e sabe do que eu tenho medo? Eu sou muito
amante do futebol e o que eu jamais faria como técnico é marcar um gol, correr
para a retranca e ficar esperando o adversário vir para cima de mim. Então,
tenho muito trabalho pela frente. Quero trabalhar até o dia 31 de dezembro.
Tenho agenda até o dia 29 de dezembro, tenho agenda no dia 28 de dezembro, eu
quero ter agenda até o último dia de trabalho. No dia que eu entregar a faixa
para quem for eleito presidente da República, aí sim...
ISTOÉ – Presidente, pelas pesquisas atuais, há uma grande chance de o
sr. entregar a faixa para a ex-ministra Dilma Rousseff. A que o sr. atribui o
êxito de Dilma? Foi graças ao empenho do sr.? É o perfil dela? Lula – Acho que há um conjunto de
valores. Primeiro, é preciso ter muita humildade para pedir para o povo votar
na Dilma. Um voto é um direito livre e soberano de cada cidadão, mas, como eu
passei por aqui oito anos e sei como funciona isso, sinto-me na obrigação de
dizer ao povo quem eu entendo que poderia dar continuidade àquilo que nós
estamos fazendo. Esta é a primeira coisa com que nós temos que ter todo o
cuidado. A segunda coisa é a seguinte: um governo que tem 76% de bom e ótimo
nos últimos cinco meses de mandato, um presidente da República que tem 86% de
bom e ótimo e se colocar regular vai a 98%, 97% em alguns Estados, é
um governo com forte possibilidade de fazer a sucessão. Tem uma aliança
política muito forte. Tem muitos candidatos a governador apoiando a ministra
Dilma. Ela está muito bem preparada, não tem hoje no Brasil ninguém mais
preparado do que a Dilma, do ponto de vista de ter o Brasil na cabeça.
ISTOÉ – Mas o sr. construiu sua candidata do zero, não é, presidente? Lula – É por isso que nós preparamos o
PAC 2. Porque eu poderia deixar para ela preparar em janeiro. Mas o que eu
quis na verdade foi, primeiro, definir as obras prioritárias para o Brasil com
os governadores e os prefeitos, colocar dinheiro tanto no orçamento quanto na
LDO. Então quem começar a governar não vai ter que encher a bola. A bola vai
estar cheia e o cara vai começar jogando. Eu acho que a Dilma está extremamente
preparada e madura politicamente. Acho que a vantagem da Dilma é que ela não
tinha pretensão. Acho que jamais passou pela cabeça da Dilma que ela seria
escolhida candidata a presidente da República
ISTOÉ – E na cabeça do sr. qual foi o primeiro momento? Lula – O primeiro momento que me veio
na cabeça foi quando eu, na Favela da Rocinha, no Rio, disse que ela era a mãe
do PAC. Ali, na verdade, eu estava começando a preparar.
ISTOÉ – O sr. chegou já chegou lá com a ideia de fazer essa declaração? Lula – Foi na hora, em função do clima,
que eu falei. E foi importante naquele momento.
ISTOÉ – Muita gente pensava que sua candidata seria a Marina Silva,
que, pelo histórico, era considerada o Lula de saias. Por que a Marina Silva
não foi a sua escolha? Lula – Quando a gente vai escolher
alguém para ser presidente da República, essa pessoa tem que ter um acúmulo de
qualidades, e não apenas um pouco de qualidades. A Marina é minha companheira
de 30 anos. Vocês jamais ouvirão da minha boca uma palavra ou uma vírgula que
possa falar mal da Marina. Um ano antes de deixar o governo, a Marina pediu
demissão. Eu não aceitei a demissão dela por conta da Dilma Rousseff. A Dilma e
o Gilberto Carvalho me pediram para convencê-la a ficar. Ela ficou mais um ano,
até que quis sair. Até hoje não me explicou por que saiu do PT e eu não fui
tomar satisfação do motivo por que ela saiu.
“De vez em quando adoto uma máxima do Chico Buarque: tem que ouvir o ministério do que vai
dar merda”
“O parlamentarismo não dará certo, como não dará certo uma cooperativa se você criá-la
de cima para baixo”
“É muito melhor para o candidato se ele tiver um presidente do qual não tenha vergonha de dizer
que é apoiado por ele, como o Al Gore fez com o Bill
Clinton”
ISTOÉ – Antes da Dilma, o sr. chegou a pensar em outros nomes? No seu
primeiro mandato havia Palocci, José Dirceu... Lula – Obviamente, se não tivesse
acontecido com o PT o que aconteceu em 2005, o quadro político poderia ser
outro. Mas a Dilma, então, veio para a Casa Civil. E eu já contei que a Dilma
foi escolhida ministra de Minas e Energia por conta de uma reunião que eu
estava fazendo em São Paulo,
preparando 2002. Quando ela chegou, depois de uma hora de reunião, eu falei: é
a minha ministra. Tanto é que o Zé Dirceu já tinha feito acordo com o PMDB para
ter o Ministério de Minas e Energia e eu disse: “Desfaça tudo porque eu já
tenho a ministra.” E ela foi de uma competência exuberante na construção do
marco regulatório do modelo de energia elétrica do Brasil. Quando ela veio para
a Casa Civil começamos a trabalhar juntos, a nos reunir cotidianamente, a
discutir as reuniões. Aí eu percebi que estava diante de um animal político não
trabalhado. De um animal político que foi educado a vida inteira para ser
técnica. E eu comecei a falar: bom, agora nós temos que descobrir o lado
político de Dilma.
ISTOÉ – E como o sr. fez? Lula – Fui colocando a Dilma em várias
reuniões das quais, teoricamente, ela não precisaria participar. Comecei a
levá-la para viajar comigo para que começasse a ver o mundo de uma concepção
mais política. Eu acho que hoje ela é uma figura extraordinariamente preparada.
Lógico que na política você está sempre se preparando. Às vezes, as pessoas
ficam comparando a Dilma comigo. Mas não é possível, porque eu venho de um
mundo diferente. Comecei diferente. E tenho um acúmulo diferente.
ISTOÉ – Mas a geração é a mesma... Lula – É a mesma, mas traçamos caminhos
diferentes. Eu acho que o que é importante é que ela é hoje uma mulher sem
ressentimentos, sem mágoa. Eu conto sempre o dia em que eu desci com Dilma de
helicóptero no Quartel do 2º Exército em São Paulo. Quando
o helicóptero parou, ela ficou olhando, olhando e disse: “Foi aqui que eu fui
trazida quando fui presa.” E depois me disse: “Engraçado, não estou ressentida.”
Descemos lá, fomos tomar café, cumprimentamos todo mundo. Eu achei isso um
gesto de superação, o que é importante para alguém governar esse país. Quando
chega ao cargo de presidente da República, ninguém tem o direito de ter mágoa,
rancor, ressentimento, de dizer eu não gosto de fulano. Não tem esse direito.
ISTOÉ – Um dos ministros mais importantes para o sr. foi o Palocci,
que agora está na campanha de Dilma. Como o sr. vê o papel dele num eventual
futuro governo Dilma? Lula – Esse é um problema do futuro
governo. Mas eu vou dizer o que penso do Palocci. Acho que no Brasil nós temos,
se é que temos, raríssimas pessoas com a inteligência política do Palocci. Digo
sempre que eu credito uma parte do sucesso do meu governo aos primeiros dois
anos, quando nós tivemos que comer carvão em vez de filé mignon. Quando tivemos
que trocar todo o capital político que eu tinha por uma política fiscal dura.
Assim, a gente pôde chegar aonde chegou. Possivelmente, se não fosse o Palocci,
nós não teríamos feito isso. Talvez pela qualidade de médico, de não sentir a
dor que sente o paciente, ele manejava a economia com uma maestria que
possivelmente um economista não manejasse. Eu devo muito do sucesso do meu
governo ao Palocci. Ele é um animal político que certamente dará contribuições
enormes a esse país. Ele é muito jovem e acho que ainda tem muita contribuição
para dar.
ISTOÉ – A Dilma não era uma escolha clara do PT, mas o sr. fez valer
sua vontade. O sr. acha que ficou maior do que o PT? Lula – É humanamente impossível fazer
qualquer teste de DNA no PT e não me encontrar lá dentro. Da mesma forma é
muito difícil fazer um DNA em mim e não encontrar o PT aqui dentro. O fato de
eu ter sido presidente me transformou numa figura infinitamente mais projetada
do que o PT. Mas isso não significa que eu seja maior do que o PT. É um partido
muito organizado no Brasil inteiro, que tem muita força. Agora, acho que nós
temos condições de construir uma coisa mais forte. Eu tenho dito a alguns
companheiros que não é uma tarefa fácil, mas eu gostaria de criar, dentro de um
processo de reforma política, uma frente ampla de partidos que pudesse
construir um programa para o Brasil, mais forte do que um partido. Pode ter
gente de todos os partidos, pode ter a maioria dos partidos.
ISTOÉ – Isto seria o fim do PT? Lula – Não. É uma espécie de seleção
brasileira. O Corinthians não deixa de ser Corinthians porque o Mano Menezes
convocou o Jucilei. E nenhum time deixa de ser porque teve craques convocados.
É uma coisa maior para construir um arco de alianças maior.
ISTOÉ – Esse grupo poderia ter o PSDB? Lula – Eu acho que acabou o tempo da
ilusão em que a gente poderia trabalhar junto com o PSDB. Eu acreditei nisso. E
muita gente do PT acreditou nisso.
ISTOÉ – O sr. acha que o PSDB foi para a direita? Lula – Acho que eles escolheram outro
projeto. Vocês estão lembrados que, logo que o Fernando Henrique Cardoso
assumiu a Presidência, ele juntou gente que na época se comportava como de
esquerda, como o PPS. Aquelas pessoas achavam que iriam ter uma participação no
governo. Qual foi o problema? Foi a reeleição, que conduziu para uma relação
promíscua com o Congresso Nacional e a coisa desandou um pouco. Essas coisas
são muito fáceis de falar, mas é muito difícil fazer, porque para construir uma
frente ampla é preciso construir uma direção partidária, que as pessoas
respeitem, que vejam nela uma liderança. De qualquer forma, como vou ter tempo,
essa questão política vai voltar com muita força na minha cabeça. Acho que nós
temos que fazer um reforma para moralizar a política no Brasil, fortalecer os
partidos políticos, para moralizar a fidelidade partidária, para parar com esse
negócio de judicializar a política como ela está judicializada. Isso se faz com
o debate político. E eu quero estar vivo no debate político.
“Tem rico que vem aqui, te pede um bilhão de reais e sai falando mal
de você. O pobre te pede dez reais e
fica agradecido pelo resto da vida”
“O que leva um homem a ter preconceito contra um ser humano
que o carregou na barriga nove meses? Que o
limpou enquanto ele não sabia se limpar? Vamos ser francos: o nosso caráter é
o da nossa mãe”
ISTOÉ – Como sua imagem, que nem os adversários atacam nesta campanha,
pode ser usada sem ofuscar a candidata? Qual é a dosagem certa? Lula – Fico feliz em saber que ninguém
quer fazer campanha falando mal de mim. É uma coisa boa, é agradável. Mas eu
tenho um lado, um partido e um candidato. E isso eu faço questão de deixar
público durante o processo eleitoral. Uma coisa a gente tem que compreender: eu
cito muito futebol porque futebol é a coisa mais fácil do povo entender. Não
existe a possibilidade de o Lula ofuscar a grandeza da candidata, porque vai
chegando o momento em que o clima na sociedade, na imprensa, no debate, é da
candidata, não é do presidente. A sociedade vai percebendo isso. É muito melhor
para a candidata se ela tiver um presidente que ela não tenha que ter vergonha
de dizer que é apoiada por ele, como o Al Gore fez com o Bill Clinton.
ISTOÉ – O PT não terá mais influência num governo de Dilma do que teve
no seu? Lula – Quem fala isso não conhece a
Dilma. Ela é uma mulher de personalidade muito forte. O PT está na direção da
campanha da Dilma, como estava na direção da minha.
ISTOÉ – Mesmo o relacionamento do sr. com o PT foi mudando... Lula – A minha relação com o PT era
diferente porque eu fui o criador do PT. Fui 13 anos presidente do PT. A minha
relação com o partido sempre foi diferente da relação da Dilma, que é uma
filiada. A direção do PT hoje está totalmente afinada com a candidata e a
candidata totalmente afinada com a direção.
ISTOÉ – E aquele episódio do programa de governo diferente,
apresentado pelo PT? Lula – Vocês não podem errar e
confundir uma tese com o programa. Quando se constrói um programa
suprapartidário, cada partido constrói uma palavra, uma vírgula. Enquanto não há
operação definitiva que diga “está pronto o programa”, não é programa, é
pré-programa. E no pré-programa entra qualquer coisa. O programa não é do PT
nem pode ser. O programa tem que ser uma síntese do pensamento dos partidos que
compõem a base de apoio da ministra Dilma. É com isso que ela vai governar o
País. E ela e o partido têm clareza disso.
ISTOÉ – O sr. acha que ela conseguirá ter ascendência política sobre o
partido? Lula – Vai ter. Deus queira que ela não
tenha muita ascendência, porque não é importante que a candidata passe a ser
muito mais forte, porque pode querer desrespeitar o partido. Eu quero que ela
passe a ter uma relação com o partido de liderança, de respeito, que não tenham
medo dela. Eu quero que os dois se respeitem. Se os dois se respeitarem, eles
vão divergir, vão brigar, mas vão construir o melhor.
ISTOÉ – Como o sr. vê a relação com o PMDB, tradicionalmente
fisiológico, que exige ministérios e muitos cargos no governo? Lula – Eu não acho que seja assim. Nós
temos que levar em conta que o PMDB é um partido forte. E que continuará sendo.
É um partido que tem muitos vereadores, muitos prefeitos, muitos deputados,
muitos senadores. Sempre, qualquer que seja o governo, de ultraesquerda ou de
ultradireita, será preciso trabalhar com o PMDB. Quando nós fizemos a
Constituição de 1988, esse foi um equívoco. Nós construímos uma carta
parlamentarista. Fizemos um plebiscito e o parlamentarismo tomou uma trolha de
80%. Só para vocês saberem, a direção do PT, da qual eu fazia parte, era parlamentarista.
Mas eu ia para o debate e o pessoal falava assim para mim: “Ô Lula! Você é
tonto, rapaz! Agora que está chegando a hora de a gente chegar ao poder você
quer transferir poder para o Congresso te eleger? Não vão te eleger nunca.” Nós
perdemos internamente no PT. A direção tomou uma surra. Acho que mais de 70%
ficaram contra a direção.
ISTOÉ – O sr. continua parlamentarista? Lula – Eu acho que tudo está ligado à
evolução cultural da sociedade. O parlamentarismo não dará certo, como não dará
certo uma cooperativa, se você criá-lo de cima para baixo. Eu, por exemplo,
trabalhava com a ideia de que era favorável ao voto distrital. Como eu imaginei
organizar o PT por núcleos, em cada rua, em cada vila, pensava numa organização
tão forte que não haveria dinheiro no mundo capaz de ganhar uma eleição de
você. Eu sonhava isso. Você teria como candidatos as grande personalidades e as
lideranças sociais. Mas muita gente no PT não acreditava nisso. Defendiam que
tem que se pedir voto para todo mundo. Mas essa história favorece quem? Quem
tem dinheiro. Eu conheci deputado que pegava helicóptero e viajava para o
interior para passar a tarde carregando gente. Parava em campo de futebol,
colocava o sujeito dentro do helicóptero e dava uma volta. Ganhava o voto do
tadinho que nunca andou de helicóptero. Mas também esse processo de mudança não
pode ser um estupro. Ter a maioria e empurrar na garganta da minoria, não. O
problema é que não há muito debate.
ISTOÉ – O sr. espera que sua ideia de frente ampla mude o modo de
fazer política no País? Lula – Eu quero ter esse papel aqui
dentro. Também tenho discutido muito em nível internacional. Muita gente já
conversou comigo para que eu tivesse um papel na Internacional Socialista. Mas
acho que a Internacional Socialista tem a cara da Europa, não tem a cara da
América Latina. Eu seria um estranho no ninho. Mas eu quero também contribuir
para que a gente discuta um pouco uma organização política aqui na América Latina.
“Hoje agradeço por todos os santos o segundo turno com o Alckmin, porque eu pude lavar a
minha alma”
“Quando você tem um político cretino, ele não quer que seu aliado ganhe, mas, sim, que o
adversário ganhe”
“Eu quero estar vivo no debate político”
ISTOÉ – Nos mesmos termos? Lula – Eu não sei ainda. Mudou a cara
política da América Latina, mas os partidos continuam os mesmos. As forças são
as mesmas. A gente não evoluiu na organização internacional. O que é o partido
do Chávez? Ou os partidos políticos na Argentina? Lá tem um monte de partidos
políticos, mas todos são peronistas. O Uruguai tem o partido mais
organizadinho, com a Frente Ampla. No Paraguai, o presidente foi eleito por
fora dos dois maiores partidos. É juntar essa coisa toda e começar a elaborar
possivelmente uma nova doutrina da criação de uma instituição política que
pense em uniformizar determinados princípios na América Latina. Sem o
dogmatismo do manifesto, que não venha com aquele negócio da terceira, quarta
internacional, não quero mais saber disso.
ISTOÉ – Há um temor no meio empresarial de um futuro governo da Dilma
ser mais estatizante que o seu. Lula – Não há essa hipótese. Eu conheço
bem a Dilma e sei o que ela pensa. Obviamente que nós não queremos ser
estatizantes, mas também não vamos carregar a pecha que nos imputaram nos anos
80, quando se dizia que o Estado não valia nada e que o mercado era o Deus
todo-poderoso. Essa crise americana mostrou que o mercado é frágil, é corrupto
e que quem tinha o Estado mais forte salvou-se primeiro. No caso do Brasil, se
não tivéssemos o Banco do Brasil, como é que a gente iria comprar a carteira de
financiamento de carro usado do Votorantim? Eu cheguei para o Banco do Brasil e
para o companheiro Guido Mantega (ministro da Fazenda) e disse: “Companheiros,
nós não podemos deixar quebrar as finanças de carro usado, porque se não vender
carro usado não tem compra de carro novo.” Eu perguntei para o Dida (presidente
do Banco do Brasil, Aldemir Bendine): “Como o Banco do Brasil está? Pode financiar
carro usado?” “Ah! Nós não temos expertise, presidente.” Eu perguntei, o que a
gente faz então? “A gente tem que formar.” Que formar, o quê! Não temos tempo
de formar, a crise está aqui, batendo à porta. Vamos comprar de quem tem. O
Votorantim tem, quer vender? Então compramos 50% da expertise do Votorantim.
Acabou o problema. O Serra queria vender a Caixa Econômica Estadual. Começaram
a falar para mim: “Você não pode comprar, porque o Serra é candidato, é
adversário, o Serra vai juntar muito dinheiro para a campanha.” Eu disse: vocês
são doidos! Acham que, por causa da campanha do Serra, vou deixar de comprar um
banco que permitirá que o Banco do Brasil volte a ser o maior do País? Quem vai
fiscalizar o dinheiro do Serra é a Justiça Eleitoral, não serei eu. Nós vamos
comprar. E compramos.
“Acabou o tempo da ilusão de que a gente poderia trabalhar junto com o
PSDB”
“O fato de eu ter sido presidente me transformou numa figura
infinitamente mais projetada do que o PT. Mas isso
não significa que eu seja maior que o PT”
“Quem chega ao cargo de presidente não tem o direito de ter mágoa, rancor, de dizer que
não gosta de fulano”
ISTOÉ – O sr. considera que estes foram dois grandes momentos no
enfrentamento da crise? Lula – Quando a gente chega aqui é
menos teoria e mais prática. Quando a gente está na oposição, está discutindo.
Você fica numa mesa de bar conversando e diz: eu penso isso, eu penso aquilo.
Quando senta naquela cadeira de presidente, você não acha, você não pensa, você
não acredita. Você faz ou não faz. E tem que tomar decisão na hora. Não tem que
se preocupar com a repercussão. Eu, de vez em quando, adoto uma máxima do Chico
Buarque: tem que ouvir o ministério do que vai dar merda. Aprendi antes de
tomar a decisão a chamar outras pessoas para perguntar: isso aqui vai dar merda
ou não? Governar é uma coisa engraçada. Uma vez o Gilberto Gil propôs a criação
da Ancinave. Era uma proposta. De repente a gente estava tomando porrada de
todos os lados. Eu reuni numa mesa todos os ministros envolvidos naquilo:
Justiça, Fazenda, Indústria e Comércio, Cultura, Secom e mais uns três ou
quatro. Disse que nós estávamos apanhando muito na imprensa e que eu precisava
saber se todos nós estávamos de acordo com a proposta na mesa. Foi fantástico.
Nenhum ministro concordava com a proposta. Porque era uma proposta para debate
e surgiu como se fosse uma proposta acabada do governo. Então eu falei: “Alguém
tem que comunicar à imprensa que está retirada a proposta. Se ninguém defende a
proposta, por que vai continuar?” No governo ou você toma a decisão rapidamente
ou é engolido rapidamente.
ISTOÉ – O Brasil, apesar dos preconceitos machistas, está pronto para
ser presidido por uma mulher? Lula – O preconceito é uma coisa
cultural muito forte no mundo e no Brasil. Mas a ascensão das mulheres nos
últimos 20 anos é uma coisa extraordinária. Fui num debate com empresários no
Paraná na sexta-feira passada e eu dizia a eles: o que leva um homem a ter
preconceito contra um ser humano que o carregou na barriga nove meses? Que o
limpou enquanto ele não sabia se limpar? Que o ensinou a comer quando ele não
sabia comer? Que formou o seu caráter e que continuou cuidando dele até ele se
casar? E só parou quando a sogra começou a se invocar? Qual é a razão que a
gente tem para não acreditar num ser que fez a gente? Vamos ser francos: o
nosso caráter é o da nossa mãe. A gente pode adorar o pai da gente, mas na
hora, que a gente caiu quem estava do nosso lado era nossa mãe. Na hora que a
gente tinha dor de barriga quem estava conosco era nossa mãe. Na hora que a
gente acordava de noite chorando quem estava do nosso lado era nossa mãe. Quem
levantava para trocar nossa fralda de noite era nossa mãe. Quem colocava
mamadeira na nossa boca de manhã era nossa mãe. Quem dava o peito para a gente
machucar era nossa mãe. Por que nós temos preconceito contra essa figura tão
nobre? Eu tenho dito para a Dilma que ela tem que dizer: “Eu não vou governar o
Brasil. Eu vou cuidar do povo brasileiro.” Porque a palavra correta é cuidar. E
cuidar da parte mais pobre. Tem rico que vem aqui, te pede um bilhão de reais e
sai falando mal de você. O pobre te pede dez reais e fica agradecido pelo resto
da vida. Então, nós temos que cuidar do povo. Esse país não pode continuar com
o povo esquecido. Eu acho que nós vamos vencer o preconceito.
ISTOÉ – Acha que foram superados preconceitos que havia contra o sr.? Lula – Eu fui vítima de muito
preconceito. Nas primeiras eleições que perdi, eu perdi porque o pobre não
confiava em mim. E
eu não tinha mágoa do pobre por isso. Mas ele me via e dizia: se esse cara é
igual a mim, por que eu vou votar nele? Era isso que levava o pobre a
desconfiar de mim. Eu precisei perder três eleições, amadureci muito, e a
sociedade foi amadurecendo até compreender que poderia votar em mim. Hoje, eu acho que o
grande legado que vai ficar da minha passagem pela Presidência são os pobres
desse país estarem acreditando que eles podem chegar lá. É isso que eu quero
fazer com a mulher. A mulher não é apenas a maioria numérica. Em muitas
funções, a mulher é igual ou mais competente do que os homens. Todos vocês são
casados e suas mulheres são mais corajosas do que vocês. E a minha também. As
nossas mulheres têm coragem de fazer brigas que nós não fazemos. Às vezes, o
vizinho enche o saco e nós dizemos que vamos conversar. E a mulher diz: “Não
tem essa não.” Ela abre a porta e vai lá. Eu acho isso uma coisa estupenda. A
coragem da Marisa para tomar decisão é infinitamente maior do que a minha. Com
ela, eu tenho que contemporizar. Não, não vamos brigar agora. E ela diz que tem
que resolver já, não tem meio-termo. E eu acho que toda mulher é assim.
ISTOÉ – Como o sr. vê José Serra como adversário de Dilma? Lula – Para mim, essa é uma eleição
engraçada. Três candidatos de oposição foram do meu partido: Marina Silva, do
PV, José Maria, do PSTU e Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. E o Serra é uma
pessoa com quem eu tenho uma relação de respeito muito antiga. Quando vejo eles
debatendo, não tenho nenhum inimigo. Tenho alguns adversários disputando com a
minha candidata. E eu acho que o Serra deu azar. Deu azar de disputar comigo
quando eu não podia perder. Digo do fundo da alma, eu nunca tive a menor
preocupação de que não ganharia aquela eleição de 2002. Eu estava convencido de
que era a minha vez, que tinha chegado a hora. Eu tinha participado da
candidatura do (Franco) Montoro e sabia como era isto. Em 1982, não adiantava
nada, aquela era a hora do Montoro ser governador. Podia falar o que quisesse.
Que ele tinha 20, 80 aposentadorias. Era a hora dele. E foi. Em 2002, eu sabia
que era a minha hora. Eu lembro que quando não ganhei no primeiro turno,
cheguei no gabinete à noite e havia uns 100 delegados da América Latina, todo
mundo lá triste. Estavam lá o Zé Dirceu e o Duda Mendonça na frente da telinha
medindo voto, dizendo que ia dar por meio ponto. E eu disse: “Gente, deixa para
lá. Tanto faz primeiro ou segundo turno.Vai apenas demorar um pouco mais. E vai
ter uma diferença bem maior depois.” E foi uma coisa extraordinária porque o
segundo turno permite que você tenha um embate direto. Eu hoje agradeço por
todos os santos o segundo turno com o Alckmin, porque eu pude lavar a minha
alma. Eu pude aumentar a minha votação em 12 milhões de votos. E ele perdeu
três milhões de votos, uma coisa inédita.
ISTOÉ – E qual é exatamente o azar do Serra, presidente? Lula – Ele foi candidato num ano em que
eu não tinha como perder as eleições. E ele agora é candidato num ano em que a
Dilma tem todas as condições de ganhar as eleições porque o governo está muito
bem e porque as coisas vão melhorar.
ISTOÉ – O sr. acredita em decisão já no primeiro turno? Lula – Eu acredito no processo
eleitoral. Para mim, não importa que seja no primeiro ou no segundo turno. Nós
temos é que ganhar as eleições. Temos que trabalhar para ganhar as eleições. E
eu acho que é uma eleição que pode terminar no primeiro turno. Mas se for para
o segundo turno não existe nenhum problema, nenhum trauma. Nós vamos fazer uma
bela campanha.
ISTOÉ – Fala-se muito que há uma grande possibilidade de, em 2014, o
presidente eleito agora ter o sr. pela frente. Como está desenhada essa
possibilidade? Lula – Vamos colocar a política no seu
devido lugar. Quando você tem um político cretino, ele não quer que o seu
aliado ganhe, mas, sim, o adversário para ele voltar quatro anos depois. No meu
caso, eu lancei a Dilma candidata porque eu quero que ela ganhe. E porque eu
quero que ela faça um governo melhor do que o meu. E que ela tenha direito a
ser candidata à reeleição. É um direito legítimo dela. Não tem essa de que a
Dilma vai ser candidata para o Lula voltar em 2014. Não existe essa hipótese.
Se a Dilma for eleita ela vai fazer um governo extraordinário e vai ser
candidata à reeleição. Se o candidato for um adversário, a história muda de
figura. Mas, aí, eu preciso estar bem, porque eu já vou estar com 69 anos. E
com 69 anos você parece novo, mas não é tão novo, não. Eu, às vezes, acho que
na política deveria ser que nem na Igreja Católica, onde o bispo se aposenta
com 75 anos.
ISTOÉ – A mais ousada ação do seu governo na política externa nos
últimos tempos foi a intermediação da questão atômica com o Irã. O que faltou
para o êxito da negociação? Lula – É o tipo da coisa que somente o
tempo vai se encarregar de mostrar o que aconteceu. Eu não tinha nenhuma
relação de amizade com o (Mahmoud) Ahmadinejad. Conheci o Ahmadinejad numa
reunião da ONU antes da minha ida a Pittsburgh para discutir o G-20. Tive uma
conversa com ele. Discutimos duas horas e a primeira coisa que comecei a
discutir era a respeito do Holocausto. Se era verdade ou não que ele não
acreditava no Holocausto. E ele disse: “Não foi bem isso que eu quis dizer.” Se
não foi bem isso que você quis dizer, então, diga. Porque em política todas as
vezes que a gente começa a se explicar muito é porque a gente cometeu um erro.
Ele disse: “É porque morreram 67 milhões de seres humanos na Segunda Guerra e
parece que só morreram os judeus. Os judeus se fazem de vítimas.” Eu falei que
se era isso que ele, Ahmadinejad, queria dizer então dissesse. Morreram 67
milhões de pessoas na Segunda Guerra, mas os judeus não morreram em guerra. Eles foram
assassinados a sangue-frio, crianças, mulheres, em câmaras de gás, é diferente.
Senti que tinha uma possibilidade de conversa. Ele pessoalmente é muito mais
afável do que na televisão.
ISTOÉ – Como o sr. encaminhou a questão? Lula – Eu cheguei na ONU, cheguei em
Pittsburgh, tinham dado uma entrevista o Sarkozy (presidente da França, Nicolas
Sarkozy), Gordon Brown (então primeiro-ministro britânico) e Barack Obama
(presidente dos EUA) criticando Ahmadinejad. Fui no Obama e falei:
“Companheiro, você já conversou com o Ahmadinejad alguma vez? Não. Você se
dignou a pegar o telefone, ligar para ele e dizer: eu quero conversar com você?
Não”. A mesma conversa eu tive com o Sarkozy, com o Gordon Brown e com a Angela
Merkel (chanceler alemã). Ora, vocês nunca conversaram com o Ahmadinejad e
estão dizendo que ele não quer sentar à mesa para negociar essa questão da paz.
Então eu quero dizer para vocês o seguinte: eu acredito que ele quer sentar e
eu estou convidando ele para ir ao Brasil, estou convidando o primeiro-ministro
de Israel, estou convidando o Shimon Peres, estou convidando o presidente da
Síria para ir ao Brasil. Separadamente, cada um na sua data. Ahmadinejad veio
aqui. Nós conversamos mais de duas horas. Eu disse que, se fosse possível a
gente avançar, eu mandaria o Celso Amorim ir muitas vezes lá. Como a Turquia
também estava tentando, então o Celso Amorim e o ministro das Relações
Exteriores da Turquia começaram a conversar com o primeiro-ministro do Irã,
preparando a nossa ida lá. Em Copenhague, quase que eu consigo marcar um jantar
entre Sarkozy e Ahmadinejad. Mas, como a rainha da Dinamarca não convidou o
Ahmadinejad para o jantar, não deu. Chegou o dia de eu ir ao Irã e eu falei
para o Celso que era preciso dizer para o Ahmadinejad que eu não poderia fazer
uma viagem inútil.
“Não haverá solução no Oriente Médio enquanto os americanos acharem que eles são os responsáveis
pela construção da paz”
“Obama achou que eu e a Turquia estávamos sonhando acreditando no Ahmadinejad, que ele
iria enganar a gente. Eu disse o seguinte: "Nasci
político, meu filho"”
ISTOÉ – O sr. também havia recebido um pedido de Sarkozy para
encaminhar ao Ahmadinejad. Lula – Sarkozy tinha falado conosco da
moça que estava presa, se poderia ter um gesto de liberar. Eu conversei com
Ahmadinejad e ele se comprometeu a liberar, tanto é que eu cheguei à meia-noite
lá e às cinco horas da manhã ele liberou. Duas semanas antes de eu viajar,
recebo uma carta do Obama. E a carta do Obama tinha um viés. Primeiro tratando
de uma forma carinhosa, se desculpando da grosseria dele quando nós fomos
discutir o assunto nuclear lá. Ele achou que eu e a Turquia estávamos sonhando,
acreditando no Ahmadinejad, que ele iria enganar a gente, não iria cumprir
nada. Eu disse o seguinte: “Eu nasci político, meu filho. Toda a minha vida,
desde 1969, foi negociar. Perdi muita coisa, ganhei muita coisa, mas negociar é
a arte maior de fazer política. Então eu vou lá porque eu acredito.” Tanto é
que quando eu cheguei na Rússia, na viagem para o Irã, Dmitri Medvedev
(presidente russo) me disse: “Obama me ligou dizendo que ele acha que você vai
ser enganado pelo Ahmadinejad.” Um jornalista perguntou: “Escuta aqui, de zero
a seis, qual é o grau de otimismo que você tem para fazer a negociação?” O
Medvedev falou 30%. Eu disse: Porra! Que otimismo pessimista! Eu falei 99,9%.
Cheguei ao Qatar, o Obama tinha ligado para o emir dizendo que vão enganar o
Lula. Cheguei ao Irã, conversamos, conversamos, conversamos. Fui conversar com
o líder supremo, Khamenei. Duas horas de conversa. Depois fui conversar com o
Ali Larijani (presidente do Parlamento) e com todos falei da importância, que
eles não poderiam arriscar o bloqueio.
ISTOÉ – Por que, presidente? Lula – Porque o bloqueio começa sem
dor, mas daqui a pouco começa a faltar remédio, começa a faltar comida. E quem
paga o preço são as crianças. Contei que Cuba viveu 50 anos, que a Líbia viveu
13 anos com bloqueio. Eu conversei tudo o que poderia conversar com eles. O
Celso Amorim teve um papel extraordinário com os ministros. Chegou no outro dia
às 9h da noite e nós fomos jantar. O Celso não estava no jantar e estava o
ministro deles. Azedou, pensei. Esse aqui (o ministro Franklin Martins) estava
muito pessimista. Na hora que eu saí do hotel, ele falou: “não vai dar nada”. E
eu: “Calma, rapaz, tem que ter fé. A fé que move montanhas.” Eu cheguei lá,
estava o ministro deles, mas não estava o Celso. Pensei que tinha azedado
mesmo. Então disse para o Ahmadinejad: amanhã eu vou embora, sabe que para eu
vir aqui eu larguei a minha mulher e os meus filhos, tenho tarefa pra caramba
no Brasil. Vim aqui porque eu quero para você o que eu quero para mim. Eu quero
que o Irã desenvolva o enriquecimento de urânio para fins pacíficos, para produzir
coisas para a indústria farmacêutica, para produzir coisas para a energia
nuclear e no meu país isso está na Constituição. E eu não quero que, por
equívoco, o mundo rico, que tem bomba nuclear, te impeça de fazer isso. Então,
na verdade eu vim aqui para dar as minhas costas para repartir as chibatadas
que você está tomando e não gostaria de ir embora sem assinar esse acordo. Se
eu for embora sem assinar esse acordo, eu vou ter que começar a fazer discurso
dizendo que você não quer negociar mesmo.
ISTOÉ – Depois disso ele resolveu assinar? Lula – Ele disse: Vamos conversar
amanhã de manhã? O ministro dele estava comigo e ia encontrar o Celso ainda. O
ministro dele disse assim para mim: “Presidente, falta só um ponto, eu vou
encontrar com o Celso agora.” Quando foi meia-noite, eu cheguei ao hotel e o
Celso me liga: “Presidente, fechamos.” Nós fomos para acertar o acordo. Tinha
físico para dar palpite, como vocês nem imaginam. Os caras não queriam assumir
compromisso com data. Eu disse que sem data nós não concordávamos. Eu falei:
“Ahmadinejad, vocês sabem o que falam de você. Lá fora na Europa, nos Estados
Unidos, falam que você não cumpre palavra, você sabe disso. Por isso é
importante colocar a data dizendo que tal dia você vai mandar tal coisa”. Ele
topou. Qual foi a minha surpresa, companheiros? É que o pessoal que estava há
não sei quantos anos tentando conversar com o Ahmadinejad e nunca conversou,
porque nunca tentou, ficou com ciúmes. Por isso a reação. Na minha opinião,
essa é a única explicação para a ciumeira do Conselho de Segurança da ONU. Nós
ainda mandamos para o grupo de Viena, com Rússia, Estados Unidos e França, a
carta no domingo, e ainda assim eles tentaram barrar. Eu acho que a história
vai mostrar o equívoco dos companheiros que resolveram trocar as conversas
pelas sanções, porque demonstraram apenas ciúmes. Em minha opinião, uma atitude
pequena. O problema é o segu