Algumas semanas atrás, atendi uma garotinha de cinco anos
que ainda fazia xixi na cama toda noite. É uma reclamação comum: pelo menos 15%
de crianças saudáveis de cinco anos de idade não passam uma noite completamente
secas.
Fazer xixi na cama é bastante comum até em crianças mais velhas. Porém,
o que pode ser mais surpreendente em relação à enurese noturna primária, para
usar o termo clínico para a incontinência urinária em crianças que ficam bem
durante o dia, mas nunca passam uma noite secas, é que a condição muitas vezes
é baseada na genética.
Em outras palavras, não se trata de problemas emocionais, ou erros que os pais
fizeram durante o treinamento para o uso do banheiro, ou preguiça, que algumas
pessoas ainda atribuem ao fato de fazer xixi na cama (e o problema é cerca de
três vezes mais comum em meninos do que em meninas).
De fato, uma das piores
coisas de fazer xixi na cama é o estigma. Os que sofrem com isso e suas
famílias têm sido acusados de várias faltas, de pais falhos até criminalidade
latente (em 1945, o "The New York Times" relatou um estudo de
psicologia sobre o histórico de 500 homens que passaram por problemas
disciplinares na Marinha em tempos de guerra. O indicador mais poderoso de não
se dar bem na Marinha, segundo o artigo, era uma combinação de três fatores:
expulsão da escola, prisão civil e enurese após os cinco anos de idade).
A enurese pode ter várias causas psicológicas. Algumas crianças não possuem um
hormônio que diminui a produção de urina à noite. Outras simplesmente fazem xixi
na cama porque a capacidade de sua bexiga é pequena."Geralmente, o
encontro que tenho com crianças que atendo na minha clínica é assim",
disse Dra. Jennifer Abidari, chefe de urologia pediátrica do Centro Médico
Santa Clara Valley, na Califórnia. "Desenho algumas bexigas; três delas
são grandes e uma é bem pequena."
Genética
Em 1995, a
primeira notícia sobre uma base genética para o xixi na cama chegou às
manchetes, depois que pesquisadores dinamarqueses relataram uma relação com o
cromossomo 13. "Está muito claro que existe um forte componente
hereditário no curso da enurese", disse Dr. Soren Rittig, professor de
nefrologia pediátrica do Hospital Universitário Aarhus, na Dinamarca. Rittig é
um dos cientistas que publicaram novas descobertas sobre a genética da enurese
noturna, que, como se descobriu, está longe de ser simples; a relação com
outros três cromossomos foi encontrada em outras famílias.
Os pesquisadores identificaram várias famílias grandes na qual a enurese foi
herdada seguindo um padrão autossômico dominante --isto é, se um dos pais tinha
um histórico de fazer xixi na cama, a criança tinha 50% de chance de herdar a
condição.À medida que as crianças ficam mais velhas que meu paciente,
tratamentos comportamentais e outros podem fazer uma grande diferença. Crianças
cujas bexigas tendem a sofrer espasmos têm a possibilidade de serem tratadas
com drogas anticolinérgicas, e crianças sem o hormônio diurético podem tomar
uma versão sintética.
No entanto, essas drogas tratam do sintoma, não do problema que está por trás.
"Considero a enurese um retardo do desenvolvimento que melhora
sozinho", disse Abidari, acrescentando que, se a medicação é interrompida
e o desenvolvimento não progride, "as crianças vão voltar a fazer xixi na
cama de novo".Nesses casos, um tratamento eficaz é um alarme na cama, que
vibra e faz barulho quando uma criança começa a urinar. Abidari afirma que o
alarme pode curar o problema, mas pode ser difícil para a família,
especialmente se a criança dorme bem. "Imagine, o alarme dispara, todo
mundo na casa acorda, mas a criança continua dormindo", disse ela. O
sucesso exige motivação de todas as partes.
Comprometimento
Os médicos, enfermeiros e psicólogos que tratam da enurese podem ser quase
messiânicos sobre o alívio que podem oferecer às crianças e às famílias.
"O médico deve estar entusiasmo para querer tratar as crianças que fazem
xixi na cama", disse Dr. Kenneth I. Glassberg, diretor de urologia
pediátrica do Morgan Stanley Childrens Hospital of NewYork-Presbyterian.Também
deve haver um comprometimento por parte da equipe, acrescentou ele, para lidar
com consultas frequentes, ligações telefônicas e o apoio de longo prazo
necessário para as crianças e suas famílias.
Todas as crianças com esse problema deveriam ser examinadas para verificar a
presença de infecções do trato urinário. Crianças que desenvolvem enurese
secundária isto é, elas ficam completamente secas por seis meses, depois voltam
a fazer xixi na cama podem ter infecções, constipação (um intestino grosso
cheio demais pode pressionar a bexiga) ou vários outros problemas, incluindo
questões comportamentais e psicológicas.
Minha paciente também estava tendo acidentes diurnos, e muitos especialistas
deveriam tratar disso antes mesmo dos cinco anos. Podem ser os mesmos problemas
com a bexiga, mas também pode haver elementos comportamentais.
Além de fatores anatômicos e hormonais, "desenvolver
incontinência diurna e noturna é uma combinação de prontidão neurológica,
prontidão de desenvolvimento e a interação entre uma criança e seu ambiente,
seja a creche, os pais, os irmãos, a pré-escola", disse Dr. Alison D.
Schonwald, professor assistente de pediatria da Harvard Medical School e
co-autor de "The Pocket Idiots Guide to Potty Training Problems"
(Alpha, 2006).
Meu plano era checar a urina da paciente de cinco anos, apenas para me
certificar que ela não tinha nenhuma infecção e indicar um urologista
pediátrico. Embora a mãe da paciente achasse que os problemas de fazer xixi
durante o dia estavam melhorando, ela gostou da ideia de consultar um
especialista. E a própria menina demonstrou o controle de sua bexiga quando
simplesmente se negou a urinar num recipiente de plástico.