Comprar
um carro zero quilômetro requer pesquisas em série: sobre concessionárias,
promoções, juros e relação custo-benefício. A aquisição de um veículo usado, no
entanto, exige cuidados que vão um pouco além desses.
Um
automóvel que já circulou pelas ruas e estradas pode esconder
problemas difíceis de captar à primeira vista, das marcas de pequenas
batidas às "sequelas" de enchentes.
Para ir
além das “maquiagens” feitas por lojas ou vendedores particulares, os
compradores precisam redobrar a atenção para detalhes que podem
indicar o real estado do veículo. Especialistas ouvidos dão dicas de como
vistoriar o automóvel e evitar problemas futuros.
O
diretor executivo da Oficina Chevy Auto Center, Denis Marum, explica que
adulterações no hodômetro de mais de 30 mil quilômetros podem ser percebidas
pelos pneus e pelo pedal da embreagem.
De acordo com ele, o pedal da embreagem
tem validade entre 60 mil quilômetros e 70 mil quilômetros. Um pedal “cansado”
é aquele que fica pesado ao colocar o pé. Também é importante testar a primeira
marcha e a ré. “Se a marcha engatou sem arranhar, é um bom sinal”, explica o
especialista.
Marum
destaca também que a primeira troca de pneus acontece entre 50 mil e 60 mil
quilômetros rodados. “Se o pneu estiver muito novo e o hodômetro apontar 40 mil
quilômetros, fique esperto. Nessa quilometragem o pneu já deve estar gasto, mas
ainda bom para usar”, observa.
Ainda
sobre o estado dos pneus, o auditor do Instituto da Qualidade Automotiva (IQA),
José Palacio, ressalta que o desgaste deve estar uniforme, principalmente dos
pneus da frente.
Segundo ele, se houver desgaste maior na parte externa ou na
parte interna, o carro está desalinhado, o que indica problemas na suspensão.
“Se passar a mão e sentir uma escadinha, também é indicação de problemas”,
afirma. Tirar o estepe do porta-malas para checagem é outra medida importante.
“Pode acontecer de o carro ser vendido com o estepe furado”, diz Palacio.
O
interior do carro é outro ponto que revela o tempo de uso do veículo. Apenas
veículos com mais de 70 mil quilômetros rodados possuem desgastes nas alavancas
de freio de mão, no couro que envolve a alavanca do câmbio e nas borrachas dos
pedais — estas chegam a ficar carecas. Já os volantes apresentam desgaste com
60 mil quilômetros, devido à ação do ácido úrico encontrado no suor das mãos.
Bancos abaulados também indicam o tempo de uso do carro.
Outra
forma de verificar se a quilometragem é compatível com o indicado é pelo manual
do carro, em que ficam registradas as revisões, ou por notas fiscais que
comprovem serviços efetuados no veículo. “Peça o manual para o antigo
proprietário. Lá constam todas as revisões com data e quilometragem, assim é
possível ver se há proporcionalidade com a quilometragem atual do modelo”,
afirma.
Como
em muitos casos o manual não existe mais, Marum sugere que sejam solicitadas
todas as notas fiscais de serviços executados. “Nelas estarão a mesma relação
que aparecem no manual com as revisões”, diz. “Se a pessoa não tiver o manual,
nem as notas fiscais, então o jeito é verificar pneus e embreagem”, recomenda o
diretor da Chevy.
Test-drive
O
próximo passo é identificar ruídos. Marum recomenda que o cliente faça um
test-drive com o carro e passe por buracos, para sentir rangidos na suspensão e
no freio. Em relação ao motor, fique atento se há ruídos contínuos no
rolamento. “Tipo o barulho de liquidificador”, exemplifica. Outro aspecto para
ser verificado é se o carro tende para um lado ou para outro. “Durante a
avaliação na rua, faça em silêncio, para nenhum barulho passar despercebido”,
aconselha.
Batidas
e enchentes
De
volta à loja, pare o carro e abra o capô em um local claro. O primeiro item a
ser verificado é a viga de metal que fica sobre os faróis. Se a iluminação
ainda for a original, nessa parte haverá selos de fábrica. “Quando o carro bate
de frente, normalmente, afeta os faróis. Quando as peças são de reposição, elas
não possuem esse selo de certificação da fábrica”, explica o especialista da
Chevy.
Em
seguida, faça a vistoria do compartimento do motor e procure vazamentos de óleo
e resíduos de massa de funilaria, que é um pó esbranquiçado e fino. “Se este
resíduo está no compartimento do motor, significa que o carro saiu de reparo”,
explica Marum. No mesmo local, cheque os parafusos de fixação dos para-lamas
laterais, que são pintados em preto. “Quando a pessoa troca o para-lama, tira a
tinta do parafuso, deixando marcas. Mas não se preocupe com risquinhos.”
O
auditor do IQA destaca que é importante notar se o número do chassi está
raspado e o estado de conservação do motor. “Tem carros com mais de 100 mil km
que pode ser considerado seminovo de tão bem conservado”, ressalta Palacio.
Para
não comprar o “mico” de um carro que ficou na enchente, Marum recomenda que se
verifique o óleo. De acordo com ele, o lubrificante tem que estar marrom. “Se
estiver esbranquiçado é porque entrou água de enchente no motor”, observa.
Cheiro de mofo no interior do carro também é indicação de que entrou água no
carro.
José
Palacio aconselha ainda questionar sobre os hábitos do antigo proprietário,
como local onde mora, endereço do trabalho, para onde costuma viajar etc.
“Assim é possível traçar o perfil do antigo proprietário e ter noção até se a
região costuma ter enchente”, diz.
Carroceria
José
Palacio aconselha que o consumidor verifique todos os vão das portas. Se a
abertura entre a porta e a carroceria for irregular, o carro foi reparado.
Também é preciso checar o fechamento das portas e porta-malas. “Se a porta está
fechando bem, ela fecha de forma macia”, afirma.
Cuidados extras
Os
especialistas aconselham os consumidores a contratar um mecânico de confiança
para fazer a vistoria do carro, caso não estejam seguros para avaliar por si
mesmos. Após a compra, eles afirmam que a verificação é necessária, assim como
a troca da correia dentada e do filtro de óleo. “A correia dentada é o coração
do carro. Por via das dúvidas, é melhor trocar”, destaca Denis Marum.