A
visita da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton a cinco países
da América Latina, iniciada segunda-feira, tem por objetivo, ao menos em parte,
atenuar as tensões regionais, mas deve perder importância diante da resposta ao
terremoto chileno e dos esforços para angariar apoio à campanha dos Estados
Unidos para isolar o Irã.
Clinton
deve passar por Santiago, no Chile, terça-feira, para reunião com a presidente
Michelle Bachelet e o presidente eleito Sebastian Pinera, o primeiro
conservador a chegar ao poder naquele país desde a queda da ditadura do general
Augusto Pinochet.
Funcionários
do Departamento de Estado norte-americano disseram que o Chile, que conta com
uma agência sofisticada de resposta emergências, provavelmente não requereria
assistência nem próxima a está sendo prestada ao Haiti. Mas eles disseram
esperar que o Chile solicite assistência norte-americana na forma de um
hospital de campanha e equipamentos de comunicação via satélite.
Clinton
também planeja paradas no Uruguai, Brasil, Costa Rica e Guatemala, a fim de se
reunir com líderes recentemente eleitos que representam as diversas correntes
políticas nas região. Mas em seus encontros com presidentes de esquerda e de
direita na região ela deve ter de encarar a crescente decepção com o que os
líderes latino-americanos veem como falta de iniciativa e de entusiasmo do
governo Obama com relação a diversas questões, entre as quais a mudança do
clima, o comércio internacional, as relações com Cuba e o golpe de Estado em
Honduras no ano passado.
Para
os Estados Unidos, um dos encontros mais importantes acontecerá no Brasil, onde
Clinton pressionará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a votar em favor de
sanções mais severas contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. As sanções
têm por objetivo pressionar o Irã a pôr fim ao seu programa nuclear, que os
Estados Unidos dizem ter por objetivo a produção de armas.
O
Brasil, que ocupa um dos assentos periódicos do Conselho de Segurança, já
declarou sua oposição a novas sanções. Recentemente, seu governo agiu de forma
a expandir os elos com as autoridades islâmicas em Teerã, e vêm defendendo
vigorosamente um maior envolvimento diplomático, de preferência a medidas de
isolamento.
"O
que queremos tentar dizer aos brasileiros é que, sim, se vocês conseguirem se
aproximar mais do Irã, instaríamos a que usassem essa proximidade para
pressionar Teerã a cumprir suas obrigações internacionais fundamentais",
disse Arturo Valenzuela, secretário assistente de Estado norte-americano.
"Se eles não o fizerem, ficaremos desapontados".
Poucos
especialistas em política externa esperam que Clinton seja capaz de persuadir
Lula, que segundo eles vê o Irã como fator pequeno mas significativo para a
importância crescente do Brasil no cenário internacional, e para o qual duelar
com os Estados Unidos ajuda a conquistar o favor de seu eleitorado esquerdista
em um ano eleitoral.
"O
Brasil está construindo um relacionamento próprio com o Irã", disse
Christopher Sabatini, diretor sênior de política do Conselho das Américas, em Nova York. "E já
deixou claro que não fará o que os Estados Unidos pedem".
Sabatini
afirmou que o desacordo provavelmente continuaria a ser "uma séria
irritação" no relacionamento entre Brasil e Estados Unidos. Ainda que bem
menos premente, se comparada à ameaça de proliferação nuclear, também existe
uma crescente exasperação com os Estados Unidos, da parte dos líderes
latino-americanos.
Na
semana passada, eles concordaram em criar uma nova organização política que, ao
contrário da Organização dos Estados Americanos (OEA), inclui Cuba e exclui os
Estados Unidos e o Canadá.
A
nova coalizão tem por objetivo ser uma rival da OEA, que alguns países veem
como ferramenta do domínio norte-americano sobre o hemisfério.
Riordan
Roett, especialista em assuntos latino-americanos na Universidade Johns
Hopkins, disse que a organização era apenas mais um exemplo da perda de
influência dos Estados Unidos na América Latina. A China, disse ele, substituiu
os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil e do Chile, duas
economias em
crescimento. E enquanto as principais indicações de Obama
para postos relacionados à América Latina sofriam atrasos devido a
desentendimentos políticos internos em Washington, a influência política
europeia na região se expandia para ocupar o vazio.
Uma
visita de Clinton, disse ele, não deve bastar para reparar os danos. "Não
tenho a sensação de que exista um plano de jogo definido para a América
Latina", disse Roett. "E os latino-americanos tampouco sentem que
exista".
Em
encontro com repórteres na sexta-feira, Valenzuela rejeitou alegações de que os
Estados Unidos teriam perdido influência na América Latina.
Não
há surpresa por Clinton não fazer visitas a Venezuela, Equador e Bolívia, cujos
líderes são adversários estridentes dos Estados Unidos. Mas houve sérias
especulações quanto aos motivos para que a Argentina, a segunda maior potência
da América do Sul, tenha ficado de fora do itinerário, embora Clinton deva se
encontrar com sua presidente, Cristina Kirchner, no Uruguai.
A
Argentina está no momento envolvida em disputa com o Reino Unido sobre as ilhas
Falkland, no Atlântico Sul. Os dois países travaram uma breve guerra pelas
ilhas, em 1982, e agora o Reino Unido, que saiu vitorioso, irritou a Argentina
ao permitir prospecção de petróleo nas águas das ilhas.
Para
irritação dos argentinos, os Estados Unidos não assumiram posição aberta quanto
à disputa.