Segunda-feira, 01 de Março de 2010         16h04        46
Sob desconfiança de líderes, Hillary visita América Latina
Terra/PCS
A visita da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton a cinco países da América Latina, iniciada segunda-feira, tem por objetivo, ao menos em parte, atenuar as tensões regionais, mas deve perder importância diante da resposta ao terremoto chileno e dos esforços para angariar apoio à campanha dos Estados Unidos para isolar o Irã.

Clinton deve passar por Santiago, no Chile, terça-feira, para reunião com a presidente Michelle Bachelet e o presidente eleito Sebastian Pinera, o primeiro conservador a chegar ao poder naquele país desde a queda da ditadura do general Augusto Pinochet.

Funcionários do Departamento de Estado norte-americano disseram que o Chile, que conta com uma agência sofisticada de resposta emergências, provavelmente não requereria assistência nem próxima a está sendo prestada ao Haiti. Mas eles disseram esperar que o Chile solicite assistência norte-americana na forma de um hospital de campanha e equipamentos de comunicação via satélite.

Clinton também planeja paradas no Uruguai, Brasil, Costa Rica e Guatemala, a fim de se reunir com líderes recentemente eleitos que representam as diversas correntes políticas nas região. Mas em seus encontros com presidentes de esquerda e de direita na região ela deve ter de encarar a crescente decepção com o que os líderes latino-americanos veem como falta de iniciativa e de entusiasmo do governo Obama com relação a diversas questões, entre as quais a mudança do clima, o comércio internacional, as relações com Cuba e o golpe de Estado em Honduras no ano passado.

Para os Estados Unidos, um dos encontros mais importantes acontecerá no Brasil, onde Clinton pressionará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a votar em favor de sanções mais severas contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. As sanções têm por objetivo pressionar o Irã a pôr fim ao seu programa nuclear, que os Estados Unidos dizem ter por objetivo a produção de armas.

O Brasil, que ocupa um dos assentos periódicos do Conselho de Segurança, já declarou sua oposição a novas sanções. Recentemente, seu governo agiu de forma a expandir os elos com as autoridades islâmicas em Teerã, e vêm defendendo vigorosamente um maior envolvimento diplomático, de preferência a medidas de isolamento.

"O que queremos tentar dizer aos brasileiros é que, sim, se vocês conseguirem se aproximar mais do Irã, instaríamos a que usassem essa proximidade para pressionar Teerã a cumprir suas obrigações internacionais fundamentais", disse Arturo Valenzuela, secretário assistente de Estado norte-americano. "Se eles não o fizerem, ficaremos desapontados".

Poucos especialistas em política externa esperam que Clinton seja capaz de persuadir Lula, que segundo eles vê o Irã como fator pequeno mas significativo para a importância crescente do Brasil no cenário internacional, e para o qual duelar com os Estados Unidos ajuda a conquistar o favor de seu eleitorado esquerdista em um ano eleitoral.

"O Brasil está construindo um relacionamento próprio com o Irã", disse Christopher Sabatini, diretor sênior de política do Conselho das Américas, em Nova York. "E já deixou claro que não fará o que os Estados Unidos pedem".

Sabatini afirmou que o desacordo provavelmente continuaria a ser "uma séria irritação" no relacionamento entre Brasil e Estados Unidos. Ainda que bem menos premente, se comparada à ameaça de proliferação nuclear, também existe uma crescente exasperação com os Estados Unidos, da parte dos líderes latino-americanos.

Na semana passada, eles concordaram em criar uma nova organização política que, ao contrário da Organização dos Estados Americanos (OEA), inclui Cuba e exclui os Estados Unidos e o Canadá.

A nova coalizão tem por objetivo ser uma rival da OEA, que alguns países veem como ferramenta do domínio norte-americano sobre o hemisfério.

Riordan Roett, especialista em assuntos latino-americanos na Universidade Johns Hopkins, disse que a organização era apenas mais um exemplo da perda de influência dos Estados Unidos na América Latina. A China, disse ele, substituiu os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil e do Chile, duas economias em crescimento. E enquanto as principais indicações de Obama para postos relacionados à América Latina sofriam atrasos devido a desentendimentos políticos internos em Washington, a influência política europeia na região se expandia para ocupar o vazio.

Uma visita de Clinton, disse ele, não deve bastar para reparar os danos. "Não tenho a sensação de que exista um plano de jogo definido para a América Latina", disse Roett. "E os latino-americanos tampouco sentem que exista".

Em encontro com repórteres na sexta-feira, Valenzuela rejeitou alegações de que os Estados Unidos teriam perdido influência na América Latina.

Não há surpresa por Clinton não fazer visitas a Venezuela, Equador e Bolívia, cujos líderes são adversários estridentes dos Estados Unidos. Mas houve sérias especulações quanto aos motivos para que a Argentina, a segunda maior potência da América do Sul, tenha ficado de fora do itinerário, embora Clinton deva se encontrar com sua presidente, Cristina Kirchner, no Uruguai.

A Argentina está no momento envolvida em disputa com o Reino Unido sobre as ilhas Falkland, no Atlântico Sul. Os dois países travaram uma breve guerra pelas ilhas, em 1982, e agora o Reino Unido, que saiu vitorioso, irritou a Argentina ao permitir prospecção de petróleo nas águas das ilhas.

Para irritação dos argentinos, os Estados Unidos não assumiram posição aberta quanto à disputa.

 

 

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