Não sei a quem devo mais: às mulheres que um dia passaram
pela minha vida ou ao Banco do Brasil.
A diferença é que, um dia, talvez eu consiga quitar minha
dívida com o banco.
Com as mulheres, vamos morrer em débito.
Com elas aprendemos a amar e a trair. E que às vezes amar
é trair. E trair nem sempre é exatamente falta de amar.
Mas, na vida de um bruto, o maior legado das mulheres é
ensinar que amar também é deixar ir embora.
Porque mais difícil do que ir embora do presente, é ir
embora do seu futuro.
E ninguém sabe fazer isso tão bem quanto elas.
Somem como fumaça e montam uma nova vida como um passe de
mágica. Enquanto o seu único abracadabra são noites insones a esperar que ela
bata na porta de madrugada.
Demora muito, às vezes uma vida inteira, até você aprender
que não se trata somente de deixar ir embora.
Trata-se, principalmente, de deixá-la ir embora e torcer
para que ela tenha toda a felicidade que você sempre quis dar e não conseguiu.
Não importa se por incompetência, inércia, conformismo ou
pouca fé. Ela iria embora independente das causas.
Até para sonhar e fazer planos a gente aprende com as mulheres.
Logo elas, tão sonhadoras, mas ao mesmo tempo com mais pés no chão do que nós.
Abrir mão de um conforto conhecido e comprovado, por uma
vida sem planos definidos e rodeada de incertezas, é algo que os homens não
costumam fazer. Só elas.
Porque somente elas têm coragem de realmente jogar tudo
para o alto por uma trilha sem luz no fim do túnel. Apenas por acreditar. E
quando elas descobrem que é um beco sem saída, voltam até o início e continuam
a procurar, como se nada tivesse acontecido.
Via de regra, quando somos nós a chegar a um beco sem
saída, ficamos sentados esperando chegar alguém para explodir com dinamite aqueles
tijolos.
Da parte delas, pode ser imaturidade, pode ser
impulsividade. Mas também pode ser sabedoria. Quando você descobrir a resposta,
certamente será tarde demais.
Brutos
Devo muito às mulheres que amei, mas talvez deva mais
ainda às mulheres que me amaram.
Se hoje ainda sou o bruto que sou, é porque não aprendi o
suficiente.
Do pouco que aprendi, sei que poderia ser um bruto ainda
maior se não fosse por elas.
Se não fosse por elas, eu estaria batendo com força numa
Olivetti até hoje e guardando meus rabiscos para ninguém ver. E nunca teria
adquirido hábitos estranhos de escrever pedaços em folhas perdidas no bolso da
calça ou em guardanapos de restaurante.
Ao fim de tudo, se não fosse por elas a gente não teria
feito metade do que fizemos na vida.
Ainda temos um longo e árduo caminho pela frente, é
verdade. Mas se não fosse por elas, não teríamos sequer um caminho para
começar.
Difícil mesmo é aprender a não olhar para trás. Uma pena
que isso nem sempre a gente consiga aprender, por mais que elas tentem nos
ensinar.
Paulo Rebêlo é jornalista, cronista e
consultor. Para saber mais sobre ele, clique aqui . Para ler as
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