A
decisão do Procon de Minas Gerais, de proibir a venda do Toyota Corolla no
estado depois de nove acidentes – um deles com perda total e ferimentos leves
na motorista – por problemas com o acelerador do veículo pode levar o
Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC) do Ministério da Justiça
a estender a medida a outros estados, além de exigir um recall de todos os
Corolla XEI automático 2009.
A Toyota, que nos EUA teve de fazer recall do mesmo
veículo por problemas similares, nega o defeito e atribui os incidentes ao uso
de acessórios não originais – no caso, um tapete que prenderia a peça. Porém,
num dos casos citados no processo do Procon, com dois travamentos, o acessório
já tinha sido retirado quando o defeito reapareceu. A montadora diz que “tomará
as medidas necessárias que preservem seus direitos”.
O
bloqueio em Minas Gerais
vigora até que a Toyota substitua os tapetes dos veículos novos e usados,
independentemente do ano, “por produtos seguros”, segundo o texto do Procon. No
Rio, o promotor Rodrigo Terra informou que o MP depende de uma eventual
denúncia local para agir. Mas um dos casos do processo ocorreu na Ponte
Rio-Niterói e com uma moradora do Rio.
O
problema foi revelado pelo blog do jornalista especializado em automóveis Boris Feldman,
de Belo Horizonte. Tendo recebido a denúncia, o deputado Délio Malheiros (PV) a
entregou ao DPDC, solicitando providências. De Istambul, o deputado comentou o
caso ao JB:
–
A montadora deveria ter tido uma atitude pró-ativa de alertar os consumidores –
avalia.
Audiências
Malheiros
conta que a área de Defesa do Consumidor da Assembléia Legislativa em MG
realizou duas audiências públicas, mas a Toyota só foi à segunda. A empresa
alegou ter colocado informações no manual do carro e sob o tapete.
–
A Toyota não está cumprindo a lei, que diz que ela deve avisar os proprietários
pessoalmente e divulgar um comunicado público. É preciso, já que todos estão
correndo risco – observa o deputado, acrescentando que ter relatos de
ocorrências também no Nordeste.
O
subsecretário do Procon-RJ, José Fernandes, afirmou que o caso será analisado,
e a empresa, notificada a prestar esclarecimentos. Segundo Fernandes, antes de
ações restritivas, o órgão faz avaliações técnicas.
–
Não podemos tomar qualquer atitude sem antes apurar o que está ocorrendo. Vamos
pedir que a Toyota explique os fatos que levaram o Procon de Minas a adotar a
medida – declarou Fernandes, acrescentando que os consumidores precisam
denunciar incidentes para que o órgão possa ter embasamento.
Em São Paulo, o Procon afirmou que “o Grupo de
Estudos Permanentes de Acidentes de Consumo (GEPAC), irá reunir-se sexta-feira
para traçar diretrizes da atuação”. Para a advogada Maria Inês Dolci, da
Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Pro Teste), a decisão em Minas é
muito importante.
–
A medida mostra que o poder público está atento, porque os recalls demoram a
acontecer, colocando em risco a segurança do consumidor.
Conserto
Advogada
do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Maíra Feltrin Alves
afirma que o DPDC deveria notificar a empresa para prestar esclarecimentos.
–
Mesmo sem recall, o consumidor pode levar seu veículo numa concessionária e
pedir o reparo sem ônus. Mas é importante denunciar – ressalta.
Em
nota enviada à redação, a Toyota diz que analisou os casos de Minas Gerais e
“identificou que o retorno do pedal do acelerador foi afetado pelo mau
posicionamento ou instalação incorreta do tapete, assim como pelo uso de
tapetes não genuínos, incompatíveis com o projeto do veículo”.
Consumidores exigem explicações da empresa
Carolina Eloy
Localizados
pela reportagem do JB em
Minas Gerais, os proprietários dos Corollas citados no
processo exigem explicações da montadora e questionam a justificativa que
receberam. A bancária Patrícia Correa comprou o carro em dezembro de 2008 e dez
meses depois, quando chegava em casa, bateu na garagem. Ela conta que tentou
frear mas não conseguir dada a grande aceleração repentina do veículo.
Patrícia
explica que estava acostumada com o veículo e com a garagem.
–
Tenho de parar o carro para abrir o portão e depois costumo dirigir devagar, já
que há muitas pilastras. De repente, o veículo ficou muito rápido e o freio não
funcionou. Só parou quando bateu de frente – explica.
No
impacto, o airbag foi acionado, mas ainda assim ela sofreu algumas escoriações,
já que tinha retirado cinto de segurança para abrir o portão. “Esse caso
precisa ser esclarecido. Acho estranho o que aconteceu e mereço saber de quem é
a culpa”.
O
caso da assistente social Noêmia Christine Cordeiro poderia ter sido mais
grave. Grávida de nove meses, ela bateu com seu Corolla 2009 quando voltava da
revisão regular de trocas de pastilhas e disco de freio. Estava parando o carro
em uma vaga a 45 graus na rua, quando, ao acertar a direção, pisou no freio e
não teve resposta. Neste momento, conta, o veículo acelerou bruscamente e foi
direto no muro em frente.
–
Acho que até tive sorte, já que passavam pedestres na calçada, que poderiam ter
sido atingidos. Também poderia ter sofrido alguma lesão ou até mesmo ser uma
tragédia se tivesse em via de alta velocidade – conta
O
veículo de Noêmia está na oficina para consertos e só ficará pronto em 15 dias.
–
Meu marido e eu só temos esse carro, ficar sem ele por quase um mês está sendo
um transtorno muito grande.
A
médica e professora Maria do Carmo Melo conseguiu evitar um acidente quando seu
Corolla acelerou e não parou quando o freio foi acionado, nem mesmo com o uso do
freio de mão. Ela disse ter sido obrigada a furar um sinal vermelho e entrar em
uma avenida com velocidade mais elevada.
–
Fiquei preocupada que o carro não parava e cheguei a olhar para qual pedal
estava pisando. Não tinha nenhum tapete enrolado. Não aceito a justificativa da
montadora – declara Maria do Carmo, que contou ainda ter ido à concessionária,
mas que lá os funcionários disseram não ter achado problema algum. Exigiu uma
revisão eletrônica e que ainda assim não foi detectado o defeito. Por via das
dúvidas, usa pouco o veículo.
–
Me sinto insegura. Não confio mais neste carro e já penso em vender, mas antes
quero explicações para não passar o problema para outra pessoa – ressalta Maria
do Carmo.
No
caso do administrador de empresas João Paulo de Sena, a aceleração repentina
aconteceu duas vezes. Ele explica que a reação foi colocar o pé embaixo do
pedal do acelerador e puxá-lo para cima. O tapete era o original e, depois da
segunda vez, a concessionária sugeriu que ele “comprasse um grampo para fixar o
tapete”.
–
Me adaptei – completa.
Proprietária no Rio quase sofreu acidente na Via Dutra
Caio de Menezes, Thiago Feres
No
Rio de Janeiro, a bióloga Joseli Lannes Vieira, também incluída no processo de
Mina Gerais, contou ter sofrido duas vezes com problemas em seu Toyota Corolla
SEG automático comprado em 2008. O primeiro susto ocorreu em dezembro do ano
passado quando ela trafegava pela Via Dutra.
–
Comecei a tremer quando percebi que a aceleração do meu motor passou de duas
mil rotações por minuto para cinco mil involuntariamente – lembra Joseli. – Fiz
força para frear e desliguei o carro bruscamente.
Segundo
ela, o problema voltou a se repetir em março, mesmo depois de o tapete ter sido
retirado. Após o novo episódio, ocorrido na Ponte Rio-Niterói, a bióloga
decidiu levar o veículo até uma concessionária, onde lhe foi dito que o
acionamento do piloto automático foi o responsável pelos problemas.
–
Perdi completamente a confiança e não me interesso em trocar de carro, já que
posso enfrentar outros problemas – revela. – Lamento não ter confiança em um
veículo que custa R$ 80 mil. Não costumo andar a mais de 80 km/h.
Este
é o segundo Corolla comprado pela bióloga. O primeiro havia sido adquirido no
ano 2000, quando ela não se recorda de ter tido complicações. Mesmo com os
recentes acontecimentos, Joseli Lannes confessou que não pretende levar o caso
adiante por conta própria, devido ao alto custo.
A
decisão de Joseli, de trocar o modelo por um mais atual, também foi lembrada
por motoristas ouvidos pela reportagem. O empresário Gustavo Pinheiro, de 28
anos, teme trocar seu Corolla 2005.
–
O recall feito nas unidades americanas e a decisão do Procon mineiro me deixam
com receio. Por conta do travamento, posso provocar um acidente, tendo prejuízo
ou, até mesmo, me ferindo – disse ele.
A
equipe do JB visitou quinta-feira várias concessionárias Toyota no Rio. Em uma
delas um funcionário que pediu para não ser identificado confirmou que
proprietários efetivamente têm reclamado de problemas no acelerador. No
entanto, de acordo com funcionários de outras duas assistências técnicas, “as
alterações se devem ao uso incorreto dos tapetes”.
–
Fazemos eletronicamente o diagnóstico dos carros e nunca encontramos nenhum
defeito. O problema é o tapete, que é retirado durante lavagens e não é fixado
corretamente com as presilhas depois – frisou um mecânico, sem se identificar.