Desrespeito a sigilo de fontes ameaça liberdade de imprensa na Alemanha
Folha/PCS
Quando
se fala do cerceamento da liberdade de imprensa e perseguição a jornalistas, na
maioria das vezes o assunto remete a países como a Rússia, China ou Irã. Mas o
que acontece na Alemanha?
O
Artigo 5 da Lei Fundamental alemã garante textualmente o direito à liberdade de
imprensa e de opinião: "Todo cidadão tem o direito de exprimir e
disseminar sua opinião por meio da palavra falada, escrita ou através de
imagens, podendo comunicá-la sem impedimentos a partir de fontes de acesso
público. Fica garantida a liberdade de imprensa e a liberdade de noticiar
através do rádio, do cinema e da televisão. Não há censura", diz a lei.
De
fato, muitos países invejam a Alemanha pela diversidade no campo da mídia e
pelo sistema de direito público de rádio e TV. No entanto, há também razões
para críticas. A organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) protesta, por
exemplo, contra uma proteção insuficiente das fontes, ou seja, os jornalistas
têm sempre que temer que a comunicação com suas fontes não seja mantida em sigilo.
O
respeito ao sigilo da fonte, contudo, é decisivo para o trabalho jornalístico.
Desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, há cada vez mais
investigações contra jornalistas na Alemanha acusados de "cumplicidade em
violação de segredo". Através desse artifício jurídico, o Estado tenta
chegar aos nomes daqueles que fornecem informações aos jornalistas.
Maior
respeito
A
ministra alemã da Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, anunciou uma lei
que deverá proteger os jornalistas de tais intromissões da Procuradoria.
"Vamos fortalecer a liberdade de imprensa. Os jornalistas deverão estar
melhor protegidos, no futuro, de apreensões. E vamos assegurar que nenhum
jornalista possa estar passível de punição por auxiliar alguém, quando ele simplesmente
quiser publicar um material que lhe tenha sido fornecido", ressalta a
ministra.
As
associações de jornalistas veem, de qualquer forma, com bons olhos o fato de
que o Tribunal Constitucional Federal, em março deste ano, tenha desconsiderado
a lei que determina o arquivamento de dados de acervo. Segundo essa lei, as
empresas de comunicação seriam obrigadas a armazenar os dados de seus clientes
por seis meses, a fim de facilitar um rastreamento sobre quem falou com quem
pelo telefone fixo, celular, ou e-mail.
Mas
mesmo que essa lei não tenha passado pelo crivo do Tribunal, a organização
Repórter sem Fronteiras teme que, em breve, poderá surgir uma nova regra,
semelhante à anterior, já que há uma diretriz da UE neste sentido, que continua
a vigorar.
Caso
histórico
A
abertura de caminhos em termos de liberdade de imprensa na Alemanha se deu no
ano de 1966, com o grande veredicto do Tribunal Constitucional Federal em
relação ao semanário Der Spiegel. A revista foi, na época, acusada de
"traição à pátria", por noticiar a respeito da situação militar da
então Alemanha Ocidental e da Otan.
O
processo terminou, contudo, com uma sentença de liberdade, cujo texto era:
"Uma imprensa livre, que não seja guiada pelo poder público nem submetida
à censura, é um dos elementos essenciais de um Estado livre. Uma imprensa
livre, política e de publicação regular, é especialmente imprescindível à
democracia moderna".
No
ranking dos Estados que prezam a liberdade de imprensa, divulgado pela organização
Repórter sem Fronteiras, a Alemanha ocupa atualmente o 18° lugar, entre 175
países. Dinamarca, Irlanda e Finlândia encabeçam a lista, cujos últimos
colocados são o Turcomenistão, a Coreia do Norte e a Eritreia.