Um medicamento feito a partir da saliva dos morcegos hematófagos
do Pantanal será testado no Canadá como opção de tratamento para pacientes que
sofrem AVC (Acidente Vascular Cerebral).
A Universidade de Alberta, no Canadá, desenvolveu a droga
manipulando geneticamente uma proteína usada pela espécie pantaneira para
evitar a coagulação do sangue das vítimas das quais se alimenta.
O Morcego-vampiro do Pantanal é estudado desde 2003 na instituição
canadense. Nesta quarta-feira a Universidade anunciou o início oficial da fase
de testes da medicação em seres humanos.
Diversos hospitais do Canadá vão usar a “Desmoteplase” para destruir os
coágulos no cérebro de pacientes que tenham sentido os primeiros sintomas do
derrame em até nove horas antes do atendimento.
Nessa fase, o estudo será feito com a distribuição de forma
aleatória entre os pacientes de doses da droga ou de placebo. Os participantes
que aceitam participar não saberão se estão usando o medicamento verdadeiro.
Segundo o neurologista do hospital da Universidade de Alberta,
Ashfaq Shuaib, que coordena a pesquisa, o uso da proteína presente na saliva do
morcego do Pantanal é promissor e surgiu da observação dos hábitos naturais do
animal no Pantanal sul-mato-grossense.
“Há muitos anos, os cientistas observaram que quando esses
morcegos da América do Sul atacam animais para se alimentar do sangue, liberam
na saliva a proteína que inibe a coagulação e pode até fazer a vítimas sangrar
até a morte. Esse fato levou à especulação de que uma droga feita a partir da
saliva desses morcegos-vampiro pode ser eficaz para quebrar os coágulos de
sangue que causam ataques cardíacos ou derrames”, explicou Shuaib.
O TPA, um medicamento anticoagulante parecido, já é utilizado
atualmente, mas só pode ser aplicado por via intravenosa se a vítima do AVC
chegar ao hospital no máximo em 4 horas após o começo dos sintomas do derrame.
“Pessoas que vivem em regiões rurais ou remotas muitas vezes não
têm acesso ao tratamento atual, que deve ser conduzido em hospitais com
especialistas em AVC e estrutura para detectar os coágulos. Além disso, o TPA
oferece um risco de induzir hemorragia cerebral”, disse Shuaib.
Para o médico canadense, as vantagens da droga feita da saliva do
morcego do Pantanal começam com a diminuição do risco de hemorragia e incluem
ainda uma janela de tempo de socorro maior. Revistas do meio acadêmico como a
Stroke, já apontaram o Desmoteplase como uma “alternativa promissora ao TPA”.