É
dessas fotos que ficam no imaginário coletivo: Pelé aos 17 anos, campeão do
mundo, chorando no ombro do grande Gilmar, que o ampara, o consola, o anima, o
conforta. Passados não mais de 52 anos, a reprodução dessa cena é quase
impensável.
Se
o garoto Neymar tivesse sido campeão do mundo nos seus atuais 18 anos, como
muitos queriam, em que ombro choraria de emoção, se é que choraria? No de
Dunga, velho e bravo campeão; no de Kaká, veterano de outras copas e acostumado
aos aplausos?
Não,
não parece a ninguém factível a repetição daquela cena protagonizada por Pelé e
Gilmar nos campos da Suécia. Meninos de hoje não choram mais nos ombros de seus
ancestrais, meninos de hoje não têm ancestrais. A sociedade pós-moderna
pulveriza as verticalidades e não provê acolhimento das angústias nas
hierarquias verticais, nos mais velhos, nos mais experientes, nos que já
passaram por isso. O resultado está aí.
A
série que deveria ser "descoberta, sucesso, fama, dinheiro, conforto e
satisfação" tem sido "descoberta, sucesso, fama, dinheiro, mulheres,
drogas, violência, desastres, prisão ou ostracismo".
Podemos
pensar em uma explicação paradigmática, além das particularidades de cada caso,
o que o mais das vezes só anda tampando o sol com a peneira: foi o pai
violento, a mãe alcoólatra, as más companhias, a péssima educação, o irmão
psicopata, etc. Ocorre que a saída da pobreza e do anonimato para a riqueza e a
fama, subitamente, gera uma forte crise de identidade.
Ter
sucesso é cair fora; na palavra "sucesso" existe a raiz "ceder,
cair". Quem tem sucesso cai fora do seu grupo habitual de pertinência. Tom
Jobim não tinha razão quando dizia que o brasileiro não desculpava o sucesso,
pois nenhum povo desculpa, só variam as maneiras de demonstrá-lo.
A
máxima de Ortega y Gasset ainda é válida: "Eu sou eu e a minha
circunstância". E quando a minha circunstância muda abruptamente, fica a
pergunta profundamente angustiante: "Quem sou eu?", que fundamenta a
crise de identidade.
Aí,
com frequência, a pessoa se aliena em uma identidade forjada, aquela que fica
bem na fotografia, a máscara; surge assim o mascarado. Quantos e quantos
jogadores de futebol não se transformaram em mascarados diante dos nossos
olhos? E a coisa não para por aí. A máscara não é suficiente para dominar a
angústia causada pelo sucesso, vindo, em seguida, um sentimento terrível de
ilimitação, de poder tudo. Quer alguma coisa, compra; quer um amor, toma; quer
ter razão, impõe. Esse sentimento de quebra de fronteiras pede um basta que não
raramente aparece da pior forma: no insulto, no acidente, na morte. Alguns têm
a sorte de passar por um desastre controlável e depois conseguem se recuperar,
carregando beneficamente a cicatriz de sua desventura, mas muitos e muitos vão
e não voltam.
Não
pensemos que a solução está no treinamento de ombros amigos, como os do
passado, dado em lições risíveis de moral e cívica extraídas dos panfletos de
neorreligiões televisivas, ou de jornalistas histriônicos que se querem
baluartes da dignidade social. O que entendemos necessário é um trabalho com
todos os grupamentos que convivem com esse fenômeno de mudança de status
repentina, dos quais as equipes de futebol são um exemplo maior, um trabalho
que saiba tratar do problema da perda de identidade como foi aqui referida.
No
mundo de hoje, um mundo horizontal sem baluartes fixos, sem Gilmares para as
pessoas se apoiarem, é necessário que possamos oferecer novos tratamentos às
crises de identidade que se multiplicam. Se o tratamento não reside mais em se
mirar no exemplo do ídolo da geração anterior, o que temos a fazer é implicar
cada um em seu ponto de vergonha essencial, aquele que a fama não recobre e que
o dinheiro não compra, um ponto de vergonha que todo ser humano carrega em si
por ter nascido e não saber muito bem o que faz por aqui, por se sentir um
acontecimento sem explicação. Pois bem, não deixemos ninguém se acomodar no
empobrecedor e perigoso "eu sou o máximo". Fiquemos com a lição do
próprio futebol, de que cada partida é uma nova partida, sem piloto automático,
sem já ganhou, sem triunfalismo. Fica a recomendação para os técnicos do
futuro: mais invenção com responsabilidade e menos repetição com disciplina.
Jorge Forbes é psicanalista. Preside o Instituto da Psicanálise Lacaniana
e dirige a clínica de psicanálise do centro do genoma humano, da USP