Com valorização, financiar imóvel fica mais vantajoso que poupar
Invertia/PCS
Com
imóveis registrando valorizações de mais de 100% em cinco anos e juros mais
baixos, o financiamento imobiliário se tornou uma alternativa mais interessante
que a tradicional poupança para adquirir o bem no futuro.
Mesmo aplicando em
investimentos de maior risco e maior potencial de ganhos, a rentabilidade pode
não superar a valorização do imóvel - quando você achar que já tem o suficiente
para negociar um bom desconto à vista, pode descobrir que a casa custa muito
mais do que você juntou.
Segundo
levantamento do Secovi-Rio para o Terra,
o valor médio de um imóvel de um quarto ofertado no bairro de classe média São
Cristovão, na zona norte do Rio de Janeiro, era de R$ 44.277 em julho de 2005.
O mesmo tipo de apartamento em julho deste ano é encontrado por R$ 88.400 em
média - uma alta de 99,7%.
Pegando
como exemplo o apartamento em
São Cristovão, uma simulação de crédito na Caixa Econômica
Federal exige R$ 14.527 de entrada (com a possibilidade de uso do FGTS) e o
restante pode ser financiado em 60 meses com juros de 8,55% ao ano - o custo
total da operação (CET) seria de 10,69% ao ano. A primeira parcela do
financiamento seria de R$ 1.799 e a última de R$ 1.265,25, pelo Sistema de
Amortização Constante (SAC). O valor total gasto na compra do apartamento após
cinco anos seria de R$ 121.242.
Caso
a valorização mantenha o mesmo ritmo, o mesmo imóvel pode valer R$ 176.800 ao
final do mesmo prazo usado acima. Para "poupar" a quantia certa
visando o pagamento à vista, partindo do zero, o interessado teria que aplicar
R$ 2.342 por mês na poupança ou R$ 1.748 na Bovespa - considerando também que
estes investimentos mantenham um rendimento similar dos últimos cinco anos
(44,24% para a poupança e 159,25% para Ibovespa, sem contabilizar taxas de
negociação de ações e Imposto de Renda).
Levando
em conta que a pessoa teria condições de guardar R$ 1.799 ao mês na poupança
(valor da 1ª parcela do financiamento proposto pela Caixa), em cinco anos ela
teria somado R$ 130.744 - valor insuficiente para comprar o imóvel de R$ 176
mil à vista. Outra vantagem do financiamento é que as parcelas são
decrescentes.
"Se
a pessoa deixa de comprar agora para comprar no futuro, é muito incerto. Pode
ter uma valorização grande em cinco anos e o que ele economizou vai pagar uma
parte menor do que pagaria agora", afirma José Dutra Vieira Sobrinho,
vice-presidente da Ordem dos Economistas do Brasil.
Perspectivas
Entre os motivos que provocaram essa valorização, estão a maior oferta de
crédito, com juros mais acessíveis e prazos maiores, escassez de terrenos nos
centros urbanos, construtoras capitalizadas com ações na bolsa de valores e
maior interesse de investidores no mercado imobiliário, tendo em vista a
facilidade para alugar ou revender por conta da grande procura. E ainda há
espaço para crescer mais, segundo o vice-presidente do Secovi-Rio, Leonardo
Schneider.
"Uma
pesquisa mostrou que o preço médio de um imóvel no Brasil ainda é metade do que
na África do Sul e na China. Estimamos que no Rio essa valorização se mantenha
pelo menos até a Olimpíada (em 2016). Ainda tem o déficit habitacional muito
grande no País, a economia aquecida, que gera mais renda para a população, e
mais gente disposta a investir em imóveis", afirmou. Outros bairros
cariocas tiveram valorizações ainda maiores nos últimos cinco anos (confira
tabela abaixo).
Em São Paulo o ritmo de valorização também foi
forte. Regiões como Santana, Butantã e Brooklin assistiram a uma escalada de
100% a 235% nos preços dos imóveis em cinco anos, de acordo com levantamento da
Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp).
A
disparada ocorre não só nas metrópoles, de acordo com Bruno Gama, diretor
operacional da CrediPronto!, consultoria especializada em financiamentos
imobiliários formada pelo Itaú e pela Lopes. "São Paulo, Rio de Janeiro e
Brasília são as principais, mas a valorização vem muito forte na maioria das
praças, com aumentos entre 10% e 35% ao ano, dependendo é claro da demanda e da
oferta", disse.
Oportunidade
Aproveitando o cenário favorável, o funcionário público federal Francisco de
Carvalho Neto adquiriu um apartamento direto com construtora. Quando o prédio
ficou pronto, ele escolheu transferir a dívida para a Caixa Econômica Federal.
"Optei pelo financiamento bancário, pois os juros são bem menores do que a
construtora cobra", afirma. Além de ser a realização de um sonho, o
apartamento de três quartos na Barra Funda (SP) é também um investimento, já
que em cinco anos ele pretende vender para comprar um maior ou mudar de cidade.
"Tenho
dinheiro aplicado e pretendo tirar quase tudo para quitar parte do
financiamento já, porque o investimento não está rendendo tanto, a não ser em
ações, mas é muito incerto. Pelo que pesquisei, a região está com o melhor
custo/beneficio e é uma área que está crescendo bastante, além de ser perto de
infraestrutura de transporte. Estou pensando também no retorno que vai me
dar", disse o funcionário público.
De
acordo com um estudo da MB Associados, encomendado pela Associação Brasileira
das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), a projeção de alta no
preço médio do metro quadrado no País até 2015 está entre 50% e 70%, com índice
menor para o mercado de luxo.
Isso
significaria que a prestação média para um imóvel do segmento econômico
passaria de R$ 620 em 2009 (com juros de 9% ao ano) para R$ 1.172 em 2015 (com
a mesma taxa), e a renda mínima para o financiamento iria de R$ 2.065 para R$
3.908 - obedecendo a recomendação de que a parcela não ultrapasse 30% dos
rendimentos mensais da família.
"Se
não tivermos grandes mudanças econômicas, minha opinião é que esse ciclo de
valorização seja de mais cinco a dez anos em função da demanda. Para a geração
que está chegando ao mercado, não faz sentido esperar herança de família ou
juntar dinheiro para comprar o imóvel. A história de comprar à vista é uma
lenda que está caindo por conta do benefício", afirma Gama, da
CrediPronto!.
Até
mesmo investidores "puros" adotam o financiamento imobiliário como
uma forma de ganhar sem despender um volume grande de dinheiro em uma tacada
só. Em imóveis usados, uma reforma pode até dobrar o valor em poucos meses.
"Isto
acontece em todos os perfis de imóveis. O investidor paga a parcela mínima e
consegue seguir até criar a opção de revenda por um preço maior. Eles têm
capacidade financeira para seguir e podem esperar uma oferta mais atrativa.
Como a demanda é grande, isso se concretiza na maioria das vezes", diz
Gama.
Dicas
Segundo Luiz Paulo Pompéia, diretor da Embraesp, os imóveis com maior potencial
de valorização são os mais "populares". O estudo da MB Associados
aponta para a mesma direção, com uma demanda da classe C de quase 1,5 milhão de
imóveis por ano até 2016, enquanto projeta 178 mil para a classe B e apenas 50
mil para de classe A.
"Nesta
década houve poucos lançamentos do segmento mais econômico. Já o mercado de
luxo tem uma tendência de estabilização de valor, dependendo da qualidade e
localização, embora condomínios horizontais e loteamentos fora dos grandes
centros apresentem um processo de valorização que deve se prolongar nos
próximos 10 anos.", disse Pompéia.
Mesmo
com a boa perspectiva do mercado, é preciso analisar muito bem suas condições
financeiras, assim como a qualidade da construção, antes de assinar um
contrato. "A boa teoria recomenda que as prestações não podem comprometer
nada superior a 30% da sua renda. Você tem outros custos inadiáveis e pode
correr risco de inadimplência. Além disso, é preciso ver se está tudo legal na
propriedade que vai adquirir", afirma Evaldo Alves, professor de economia
da FGV/EASP.