Metade
dos casarões antigos de Salvador corre alto risco de desabamento. Segundo
levantamento da Defesa Civil, realizado no ano passado, são 224 construções
abandonadas ou carentes de manutenção, que podem vir abaixo a qualquer momento.
Um acidente do tipo não seria de todo uma surpresa. Neste ano, já houve 19 desabamentos
- o mais recente, na última quinta-feira. No mais grave dos incidentes, em
julho, três pessoas morreram no bairro de Pernambués.
Construções
fora dos padrões técnicos representam 70% do total de prédios da capital
baiana, conforme a Defesa Civil. É a principal causa dos desabamentos, junto à
falta de conservação, oxidação de pilares e vigas, infiltrações e até a
acumulação de lixo.
A
fiscalização é deficiente, falta infraestrutura e planejamento, e o poder
público é omisso, sustenta o presidente Conselho Regional de Engenharia (Crea)
da Bahia, Jonas Dantas. "Pelo que se vê, esses acidentes começam a se
tornar rotineiros", observa. Dantas afirma que o governo do Estado é
responsável, na medida em que deixa de usar recursos disponíveis do governo federal
para minimizar o problema. "Existem instrumentos legais, mas não colocados
em prática", afirma.
"Foi
sancionada uma lei federal, em dezembro de 2008, que pode ser regulamentada por
meio de decreto municipal, ou estadual, que habilita o Executivo a receber
recursos do Fundo Nacional de Habitação de interesse Social, que visa resolver,
entre outros problemas, essa questão das construções irregulares. No entanto, a
lei não foi sancionada, e deixa esse vazio no atendimento."
Ele
acrescenta que, em 2007, o Crea identificou 110 casarões antigos que corriam
risco de desabar, sendo que alguns deles estavam ocupados. "As
informações, inclusive com sugestões, foram encaminhadas ao Ministério Público
e para a prefeitura, mas nada foi feito."
Segundo
o presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia
(Sinduscon), a irregularidade das construções é um reflexo da informalidade no
mercado profissional da construção civil. De acordo com ele, para cada emprego
formal, existem outros dois informais.
"Os
trabalhadores (informais) respondem por uma parcela bem representativa do
mercado. Para se ter uma ideia, as empresas consomem apenas 40% da produção de
cimento do País, os outros 60% vão para esse mercado", disse. Para o
sindicalista, a informalidade é preocupante porque coloca em risco a segurança
da população.
De
acordo com Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural da Bahia (Ipac), órgão
vinculado à Secretaria de Cultura do Estado, historicamente, a cidade de
Salvador sofre com a falta de políticas de preservação do patrimônio histórico,
uma vez que a administração municipal não possui diretrizes ou órgãos
específicos para esse fim.
"Faltam
equipes técnicas, e existe um déficit quantitativo e qualitativo de
profissionais", diz Dantas.
Relatórios
A Defesa Civil de Salvador elaborou relatórios sobre os casarões da cidade nos
anos de 2007 e 2009. De acordo com o levantamento mais recente, dos 224 imóveis
vistoriados, 50% apresentavam "alto risco". Dois anos antes, 414
casarões apresentavam algum grau de risco. A maior parte dos imóveis estava
localizada no Centro Histórico e no bairro do Comércio (Cidade Baixa).
Em
muitos dos casos, a degradação foi ocasionada pelo abandono, ou pela falta de
condições financeiras dos proprietários para realizar as intervenções
necessárias. De acordo com a Defesa Civil municipal, os levantamentos são
encaminhados para os órgãos responsáveis pela conservação do patrimônio
histórico.
Encostas
A cidade de Salvador foi fundada há mais de 450 anos, e sua configuração
urbanística foi elaborada ao longo dos morros para evitar invasões de inimigos.
Na década de 70, com a criação do Pólo Industrial de Camaçari, a ocupação
irregular na capital migrou para a região norte, sobre os morros. Desde então,
a falta de infraestrutura e planejamento se tornaram problemas mais sérios.
No
ano passado, ocorreram 29 desabamentos, seis a menos do que em 2008, segundo
dados da Defesa Civil.