No Chile, mineiros presos há 19 dias dizem ter muita fome; resgate levará meses
Folha/LD
Isolados
a 700 metros
de profundidade há 19 dias, os 33 trabalhadores da mina chilena de San José, em
Atacama, preparam-se para um dos mais longos e trabalhosos resgates
subterrâneos já registrados. Após receberem cartas da família, os mineradores
cantaram o hino nacional do Chile e disseram estar com muita fome.
Ainda
na segunda-feira à noite os mineradores conseguiram se comunicar pela primeira
vez com a superfície.
"Estamos
todos sãos e com fome", disseram os mineradores ao ministro de Mineração,
Laurence Golborne, a cargo da operação de salvamento.
De
acordo com informações divulgadas pela senadora Isabel Allende, que teve acesso
às fichas dos médicos que trabalham na operação de resgate, os 33 homens
sobreviveram até este momento com "duas colheres de atum e meio copo de
leite a cada dois dias".
A
médica Paula Newman reafirmou que o estado de saúde dos mineiros é
"perfeito" e que eles já receberam uma solução com glicose a 5% e
comprimidos de omeprazol, um medicamento para revestir o estômago para evitar
possíveis úlceras devido à falta de alimentação.
O
tempo para se chegar ao grupo, estimado em até quatro meses, ainda não foi
comunicado aos mineiros, que receberão tarefas diárias e serão monitorados por
médicos e psicólogos.
"Disse-lhes
que todo o país está com eles, que vamos ajudá-los", disse o ministro
Golborne na noite de segunda-feira.
HINO NACIONAL
No
diálogo com Golborne, um mineiro se apresenta: "aqui fala o chefe de
turno, Luis Urzúa"...
Ao
ser perguntado pelo ministro como estava, Urzúa respondeu: "ministro,
estamos bem; esperando que nos resgatem. Temos bebido alguma água e comido um
pouco do que tinha no abrigo".
Em
seguida, Urzúa diz: "ministro, quero fazer uma pergunta. Tínhamos uns
companheiros que tentavam escapar (no dia do desabamento) e não sabemos se
saíram ou não".
Quando
Golborne respondeu: "Saíram todos ilesos. Não houve nenhuma morte",
os mineiros presos aplaudiram e gritaram de alegria.
"Quero
que saibam que montamos um acampamento aqui onde estão seus familiares. Eles
sofreram estes 17, 18 dias, mas agora sabem que vocês estão bem e ficaram muito
contentes", disse o ministro.
Com
a notícia, os mineiros gritaram o tradicional "Chi Chi Chi Le Le Le - Viva
Chile" e cantaram o hino nacional em coro.
ESCAVAÇÕES
A
equipe de resgate liderada pelo engenheiro André Sougarret, da mineradora
estatal Codelco, se prepara agora para iniciar uma longa e complicada operação
que pode durar até quatro meses.
Paralelamente,
os médicos se encarregarão da recuperação física e os psicólogos e psiquiatras
darão apoio emocional para que os mineradores suportem o stress.
O
Ministério da Saúde chileno já pediu ajuda à Agência Espacial Americana (Nasa)
para manter os mineiros em boas condições.
Além
disso, um questionário será enviado para conhecer o estado físico e psicológico
com perguntas como "quem está organizando o grupo?", "quando foi
a última vez que você comeu?" ou "está ferido, machucado ou
doente?".
Uma
escavadeira gigantesca de quase 30 toneladas chegou hoje desmontada em peças
até a jazida San José procedente da Divisão Andina de Codelco.
A
máquina perfurará a rocha a uma velocidade de 20 metros por dia para
escavar um túnel vertical de 66 centímetros de diâmetro pelo qual os
operários serão resgatados.
RESPONSÁVEIS
Paralelamente
ao avanço dos trabalhos de resgate, também teve início a controvérsia entre as
autoridades e os donos da mineradora San Esteban, responsável pela exploração
da jazida acidentada.
O
presidente do Chile, Sebastián Piñera, anunciou nesta segunda-feira um castigo
para os responsáveis pelo acidente na mina San José.
"Vamos
sancionar todos os que tenham responsabilidades neste acidente, tanto civis
como penais", disse o líder durante um ato no Palácio de la Moneda no qual anunciou a
criação de uma comissão para a segurança no trabalho que elaborará
recomendações para melhorar as condições dos operários chilenos.
Desde
o domingo (22) as autoridades chilenas receberam mensagens de apoio de diversas
personalidades, entre elas os presidentes da Bolívia, Evo Morales; Colômbia,
Juan Manuel Santos; Equador, Rafael Correa, e Peru, Alan García, assim como do
chefe do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero.
O
Executivo criticou os donos da mina, Alejandro Bohn e Marcelo Kemeny, por não
terem adotado as medidas de segurança que seriam capazes de evitar o acidente.
Bohn
disse à "Rádio Cooperativa" que ele e seu sócio não têm "nenhuma
intenção de seguir com a jazida San José por enquanto " e acrescentou que
não há certeza de que a empresa possa seguir pagando o salário dos
trabalhadores".
O
ministro Golborne reprovou Bohn por não assegurar o pagamento dos salários às
famílias dos trabalhadores, que já anunciaram a apresentação de uma ação contra
os empresários.
Além
disso, Brunilda González, prefeita de Caldera, localidade próxima à mina,
interpôs hoje uma ação contra os responsáveis do acidente, que ainda não estão
claros, unindo-se a uma investigação aberta pela promotoria contra os donos da
mina e os funcionários públicos que permitiram sua reabertura apesar dos
acidentes ocorridos nos últimos anos.
CARTAS
Ainda
na segunda-feira à noite Lilianett Ramirez, 51, mulher de Mario Gomez, 63,
recebeu um bilhete do marido -- um dos mineiros isolados. "Eu a verei em
breve e seremos felizes para sempre", dizia a nota.
Você
imagina? Após 30 anos de casamento, estamos mandando cartas de amor um para o
outro, disse ela, cansada após as três semanas que passou acampada em frente à
mina, ao lado de outros familiares que aguardavam pela confirmação de que os
homens estavam vivos.
OUTROS CASOS
Em
2009 três mineiros sobreviveram por 25 dias isolados numa mina inundada no sul
da China. Já no nordeste da China dois mineiros foram resgatados com vida após
23 dias de espera em 1983.
"A
sobrevivência dos mineiros após 17 dias é algo muito incomum, mas já que eles
chegaram até aqui, é provável que cheguem bem à superfície", disse Davitt
McAtteer, que foi secretário-assistente de segurança e saúde em minas dos EUA
durante o governo de Bill Clinton.
"Os
riscos de saúde numa mina de cobre e ouro são relativamente pequenos se você
tem acesso a ar puro, alimentos e água", complementou.
"Há
um padrão psicológico que já observamos" neste tipo de situação, disse. No
entanto, o estabelecimento de uma linha de comunicação com os trabalhadores
significa que psicólogos e psiquiatras podem "guiá-los neste
processo", afirmou McAteer.