Encontro dos 4 Rios sela acordo contra projetos hidrelétricos
Eco agencia/PCS
Cerca
de 600 lideranças de ribeirinhos, pequenos agricultores, atingidos por
barragens e indígenas dos grupos Munduruku, Karitiana, Tupaiu, Borari, Arara,
Kanoé, Juruna, Xicrin e Kayapó, das áreas de influência e impacto dos projetos
hidrelétricos dos rios Madeira, em Rondônia, Teles Pires, em Mato Grosso, Tapajós,
no Pará e Xingu, no Pará consolidaram uma articulação interestadual de
oposição e resistência contra as obras em andamento e sob planejamento nos rios
da Amazônia. O entendimento saiu do encontro realizado entre os dias 25 e 27 em
Itaituba, no Pará.
Em Mato Grosso existem dezenas de projetos para
construção de hidrelétricas e que vem causando grandes confrontos. No
Complexo do Rio Teles Pires, que faz parte do entendimento, estão projetadas a
implantação de cinco usinas. Segundo o Ministério Público, foram identificados
seis aproveitamentos hidrelétricos na Bacia do Rio Teles Pires. Além disso,
indígenas tem atuado para mitigar os efeitos da Hidrelétrica de Dardanelos, em
Aripuanã, que poderia colocar em risco a sobrevivência de vários grupo.
Do
complexo, cinco usinas hidrelétricas estão em processo de licenciamento
ambiental. Três delas – Sinop, Colíder e Foz do Apiacás – estão sendo
submetidas à Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso. Nas
outras duas UHEs, São Manoel e Teles Pires, o licenciamento ambiental está sob
a responsabilidade do Ibama. De acordo com orientações do Plano Decenal de
Expansão de Energia 2008/2017, todos esses empreendimentos hidrelétricos estão
previstos para começarem a operar em 2017.
Durante
o encontro, que contou com a presença do procurador do Ministério Público
Federal (MPF) do Pará, Felicio Pontes, e de especialistas de várias áreas de
relevância (biólogos, cientistas sociais, antropólogos e advogados), foram
relatados os graves impactos sociais que já ocorrem em Rondônia e apontadas as
inúmeras ilegalidades que marcaram os processos de licenciamento e instalação
dos projetos do Madeira e de Belo Monte.
Em
contundentes depoimentos, representantes dos atingidos pelas obras de Santo
Antonio e Jirau descreveram a situação de miséria da população e problemas como
aumentos vertiginosos nos preços dos alimentos, violência, prostituição, drogas
e outros.
“Em Porto Velho, o quilo
da farinha de mandioca chega a custar R$ 8. O peixe está vindo de Manaus.
Muitas famílias de Jaci Paraná estão apavoradas, trancando suas filhas em casa,
por medo de estupros e dos aliciadores. Conheci um velho pescador que teve que
internar o seu filho, viciado em crack. Em Jaci, as únicas formas de lazer para os
trabalhadores das obras são bebida, prostituição e drogas. Na cidade, também já
foram assassinadas duas lideranças sociais, e uma terceira teve que fugir”,
conta Iremar Ferreira, liderança local.
Já
de acordo com Felicio Pontes, há nove Ações Civis Públicas do MPF que ainda
tramitam na Justiça contra Belo Monte, englobando o período de 2001 a 2010, e abordando
irregularidades como licenciamento estadual para rio federal e
empreendimento em terra indígena, falta de autorização do empreendimento, como
exige a Constituição no artigo 231; tramitação ultra-rápida – menos de 15
dias – do Decreto Legislativo 788, no Congresso Nacional; Índios afetados
não foram ouvidos, entre outros.
Há
outras questões em debate como estudos de impacto iniciados sem o Termo
de Referência obrigatório; privilégio as três maiores empreiteiras
do país, supostamente beneficiadas pela Eletrobrás com informações sobre o
empreendimento - o convênio previa até cláusula de confidencialidade; EIA-RIMA
com falta de documentos aceitos pelo IBAMA e também a realização de apenas
quatro audiências públicas realizadas.