Uma
gráfica no bairro do Cambuci, em
São Paulo, informou que imprimiu 2,1 milhões de folhetos (100
mil na campanha do primeiro turno e 2 milhões na do segundo) que, segundo o PT,
atingem a presidenciável Dilma Rousseff ao relacioná-la à defesa da descriminalização
do aborto.
De
acordo com a gráfica, a encomenda foi feita por um assessor da Diocese de
Guarulhos (SP). Segundo os proprietários da empresa, a polícia esteve na
gráfica neste sábado (16) depois que militantes do PT se concentraram no
local. O advogado Igor Tamasauskas, que representa o PT, informou
que foi registrado um boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial de São
Paulo e protocolada uma representação na Justiça Eleitoral para apurar possível
crime de difamação e a origem dos recursos usados para o pagamento.
O
texto do folheto faz um apelo aos eleitores para que votem em "candidato
ou candidata e partidos contrários à descriminalização do aborto".
Intitulado "Apelo a todos os brasileiros e brasileiras", o texto é
atribuído à Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB (Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil).
O
texto justifica o apelo com base em resoluções de congressos de 2007 e de 2010
do PT, favoráveis à discriminalização do aborto, e "considerando que este
mesmo congresso [o de 2010] aclamou a própria ministra da Casa Civil como
candidata oficial do Partido dos Trabalhadores para a Presidência da
República".
"Recomendamos
encarecidamente a todos os cidadãos e cidadãs brasileiros e brasileiras, em
consonância com o art. 5º da Constituição Federal, que defende a
inviolabilidade da vida humana e, conforme o Pacto de S. José da Costa Rica,
desde a concepção, independentemente de suas convicções ideológicas ou
religiosas, que, nas próximas eleições, deem seu voto somente a candidatos ou
candidatas e partidos contrários à discriminalização do aborto", diz o
texto.
O
G1 tentou,
mas não conseguiu, localizar por telefone o bispo da Diocese de Guarulhos, dom
Luiz Gonzaga Bergonzini. O padre Geraldo Martins Dias, assessor da CNBB,
afirmou que o folheto não é de responsabilidade da entidade e que cabe à
Regional Sul 1 esclarecer o assunto.
O
bispo de Limeira (SP), dom Vilson Dias Oliveira, responsável pela Comissão de
Comunicação do Regional Sul 1 da CNBB, disse lamentar o episódio, mas afirmou
que o caso precisa ser investigado. Segundo ele, na noite deste sábado, bispos
da Regional Sul 1 iriam se reunir para discutir o caso.
"Não
temos informação concreta de nomes, de quem autorizou, se foi o bispo de
Guarulhos mesmo, se foi outra pessoa. A gente lamenta, obviamente, porque
alguém está usando eleitoralmente essa questão, o que é lamentável",
declarou dom Vilson Oliveira ao G1.
Segundo
o bispo de Limeira, a nota não foi feita pelo Regional Sul 1. "Foi
uma comissão que fez. Então, estamos pagando o pato, como diz o ditado",
afirmou.
O
bispo de Assis (SP), dom Benedito José Simão, presidente da comissão que assina
o texto, afirmou que, após a elaboração do documento, foi pedida a impressão de
cópias para distribuição em paróquias, dioceses e entidades em defesa da vida.
Ele disse não saber qual era a quantidade de cópias nem a gráfica em que foram
impressas.
"O
que eu estou sabendo é que a gente imprimiu, sim, uma quantidade no primeiro
turno da eleição, mas a gente nem esperava que fosse haver segundo turno.
Então, foi feito aquilo e depois o pessoal foi reproduzindo", declarou.
Em
entrevista ao G1 em julho, dom Luiz Gonzaga Bergonzini disse que iria orientar
os padres de Guarulhos a pregar nas missas o voto contra Dilma Rousseff em
razão da defesa da legalização do aborto pelo PT em congressos do partido.
Versão da gráfica
De acordo com Paulo Ogawa, pai de Alexandre Takeshi Ogawa, proprietário da
Editora e Gráfica Pana, na segunda quinzena de setembro, foram entregues 100
mil exemplares do folheto, encomendados, segundo ele, por um assessor da
Diocese de Guarulhos. Pelo serviço, disse Ogawa, a gráfica recebeu R$ 3 mil,
pagos por meio de boleto bancário emitido em nome da diocese.
Paulo
Ogawa afirmou que, após o primeiro turno da eleição, a gráfica foi novamente
procurada para imprimir outros 2 milhões de folhetos. Segundo Ogawa, essa
encomenda não foi paga nem entregue porque o trabalho ainda não foi concluído.
A
gráfica argumenta que não cometeu irregularidade - somente atendeu a uma
encomenda legal feita por um cliente. "Foram buscar uma coisa supostamente
ilegal, mas isso não foi constatado, e o delegado me liberou", afirmou
Ogawa.