Em
carta aberta aos candidatos Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), a senadora
Marina Silva (PV), que ficou em terceiro lugar no primeiro turno das eleições
presidenciais, declarou "independência" no segundo turno.
O
PV, por ampla maioria, acompanhou a decisão de Marina e não apoiará formalmente
nenhum dos dois candidatos - o que não impede que integrantes do partido o
façam. A mensagem de Marina foi lida ontem na plenária do PV, realizada na
capital paulista. A senadora, que obteve cerca de 20 milhões de votos no dia 3,
fez críticas ao PT e ao PSDB pelo tom da campanha no segundo turno. Classificou
as duas legendas como "fiadores do conservadorismo renitente".
O
apoio de Marina a Dilma ou Serra estava condicionada à convergência de
programas de governo. Os verdes, no entanto, consideraram "fracas" as
respostas dadas pelas campanhas adversárias à "Agenda por um Brasil Justo
e Sustentável" - lista de 42 compromissos apresentada pelo PV.
Apesar
das críticas, Marina avaliou que o PT apresentou respostas melhores que as do
PSDB à demanda verde. "Tivemos acolhimento parciais nas duas respostas que
nos foram enviadas", disse ela. "Identificamos, para ter senso de
justiça, na resposta enviada pelo PT, um maior acolhimento."
A
senadora verde, porém, preferiu definir-se como "mantenedora de
utopias" e não declarou em quem votará no dia 31. "É secreto, me
reservo a meu direito de eleitora", esquivou-se.
"Quero
afirmar que o fato de não ter optado por um alinhamento neste momento não
significa neutralidade em relação aos rumos da campanha. Creio mesmo que uma
posição de independência, reafirmando ideias e propostas, é a melhor forma de
contribuir com o povo brasileiro", discursou a ex-candidata.
Com
essas palavras, que reforçam um provável cenário de terceira via para as
eleições presidenciais de 2014, Marina passou a fazer uma crítica ao
"caráter dualista" da política nacional. Ela afirmou a existência de
uma "ironia histórica" no duelo entre petistas e tucanos.
Embates.
Na carta, a senadora comparou a disputa travada entre PT e PSDB nos últimos 16
anos aos embates entre monarquistas e republicanos, entre UDN e PSD - que
dominaram a política nas décadas de 1940 a 1960 - e entre MDB e Arena, durante o
regime militar. "Dois partidos nascidos para afirmar a diversidade da
sociedade brasileira, para quebrar a dualidade existente à época de suas
formações, se deixaram capturar pela lógica do embate entre si até as últimas
consequências", observou.
Na
visão de Marina, o posicionamento "pragmático" dos dois partidos é
uma "armadilha para a qual ambos caem e levam o País". "O grande
nó está na política, porque é nela que se decide a vida coletiva, se traçam os
horizontes, se consolidam valores ou a falta deles", sublinhou.
Ao
final, em entrevista, Marina descartou a hipótese de participar em um futuro
governo, independentemente de coloração partidária.
Instruções.
Dos 92 membros do PV presentes à plenária de ontem, apenas quatro votaram pelo
apoio explícito a Serra ou Dilma, afirmou Maurício Brusadin, presidente do PV
paulista.
Dois
deles são secretários da Prefeitura de São Paulo: Eduardo Jorge, do Meio
Ambiente, e Marcos Belizário, da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida.
Completam a lista de dissidentes do posicionamento de Marina a presidente
estadual do PV no Espírito Santo, Sidnéia Fontana, e um outro correligionário
que não foi identificado pelos presentes.
Na
prática, os filiados ao PV não estão proibidos de fazer campanha para Serra ou
Dilma, desde que não portem símbolos do partido em eventos públicos para não
causar constrangimento à decisão nacional.
O
vice-presidente do PV, deputado eleito Alfredo Sirkis (RJ), disse que não há
como fiscalizar o cumprimento da definição, amparada por documento interno do
partido, mas pediu ajuda da imprensa e de correligionários para identificar
traidores.
Para
as disputas de governo estadual, onde o partido é coligado e ainda há disputa
de segundo turno, o apoio formal será mantido. Enquanto isso, presidentes de
diretórios e porta-vozes do PV estão proibidos de declarar voto em Serra ou
Dilma.
TRECHOS DA CARTA DE MARINA
"Mesmo
sem concorrer, estamos no segundo turno com nosso programa, que reflete as
questões aqui colocadas. Esta é a nossa contribuição para que...
...o processo eleitoral transcenda os velhos costumes e acene para a
sustentabilidade política que almejamos.
Como disse, ousei trazer a vocês essas reflexões, mas não como formalidade ou
encenação política nesta hora tão especial na vida do País. Foi porque acredito
que há terreno fértil para levarmos adiante este diálogo. Sei disso pela
relação que mantive com ambos ao longo de nossa trajetória política.
De José Serra guardo a experiência de ter contado com sua solidariedade quando,
no Senado, precisei de apoio para aprovar uma inédita linha de crédito para os
extrativistas da Amazônia e para criar subsídio para a borracha nativa. Serra
dispôs-se a ele mesmo defender em plenário a proposta porque havia o risco de
ser rejeitada, caso eu a defendesse.
Com Dilma Rousseff, tenho mais de cinco anos de convivência no governo do
presidente Lula. E, para além das diferenças que marcaram nossa convivência no
governo, essas diferenças não impediram de sua parte uma atitude respeitosa e disposição
para a parceria, como aconteceu na elaboração do novo modelo do setor elétrico,
na questão do licenciamento ambiental para petróleo e gás e em outras ações
conjuntas.
(...)
Por isso me atrevo, seja quem for a assumir a Presidência da República, a
chamá-los a liderar o País para além de suas razões pessoais e projetos
partidários, trocando o embate por um debate fraterno em nome do Brasil."