Quem vê a lista de velejadores do Brasil nas regatas de um Pan na baía de Guanabara pensa numa palavra: favoritismo, ainda mais no quarto esporte que mais trouxe medalhas em Pans para o país. Mas não é bem assim, segundo eles.
"Se fosse em Búzios ou Araruama [litoral norte do Rio], eu seria favorito", diz Ricardo Winicki, o Bimba, que ganhou há duas semanas o título mundial da classe RS:X (prancha à vela), em Cascais (POR).
Cercada de morros e com uma abertura estreita para a entrada da água de mar aberto, a baía de Guanabara acaba oferecendo barreiras para o vento e um fluxo desordenado de correntes.
"São regiões com vento mais constante. Os ventos na baía são muito traiçoeiros, às vezes quase não venta, e você tem que se garantir no preparo físico", acrescenta o velejador, que assegurou a vaga brasileira para a Olimpíada de Pequim e conquistou o ouro no Pan de 2003.
O raciocínio foi dividido por um de seus principais rivais, o americano Benjamin Berger, no seu primeiro treino na marina da Glória. "Realmente, são ventos pouco consistentes. Creio que a luta aqui será boa", disse ele, que comparou os ventos com os de Cascais.
Tão inconsistentes que fizeram Robert Scheidt, octocampeão mundial, bi olímpico e tri pan-americano garantir seu lugar na laser, da qual se despede, só na última regata do Pré-Pan. Para Pequim, tentará ficar com a vaga do país na star, cujo Mundial foi vencido por ele e Bruno Prada em Cascais.
Há quem reconheça que, mesmo com os ventos dúbios, os brasileiros podem levar vantagem na Guanabara. "É verdade que são inconsistentes, mas há vantagem, porque a gente sabe qual é o regime dos ventos, a direção em que ele sopra de manhã e à tarde", diz João Carlos Jordão, da classe J24.
Um dos membros da equipe que conta com Maurício Santa Cruz, Daniel Santiago e Alexandre Saldanha, ele acrescenta: "Conhecendo isso, dá para a gente se posicionar antes do adversário e pegar o vento".
Outro fato que pode ser decisivo é a sujeira das águas da baía. "Disseram que iam limpar, mas eu encontrei a mesma coisa", disse Patrícia Castro, 18, da RS:X, mais jovem entre os velejadores nacionais.
Acostumada a velejar na área, a niteroiense que assegurou em Cascais a vaga nacional em Pequim acrescenta: "No primeiro dia, meu técnico teve que parar três vezes para tirar sacos plásticos do leme".
Ontem, os rivais do Brasil teriam a primeira chance de sentir como os barcos se comportariam na baía. Após a manhã de ontem, ocorreria a regata de abertura das provas de vela, que não conta pontos.
Para hoje, estão programadas as duas primeiras regatas de todas as classes. A primeira, às 13h, e a segunda, às 15h.