O
Ministério Público Federal em
Mato Grosso do Sul (MPF/MS) descobriu que o Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) comprava cestas básicas em
número muito superior ao necessário para abastecer as famílias de trabalhadores
rurais acampadas no Estado.
Somente em agosto do ano passado, a autarquia
determinou que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) adquirisse 16 mil
cestas, ao custo de R$ 68 cada.
Teoricamente, cada cesta iria abastecer uma família acampada. Mas o próprio
Incra admitiu, depois de recadastramento determinado pelo MPF, que há 2.553
mil famílias em 110 acampamentos em todo o estado, ou 16% do total
estimado. O excedente de 13.447 cestas custou aos cofres públicos R$ 914 mil.
Em 2010, houve outras duas etapas de distribuição de cestas básicas no Estado,
com aquisição de 13.587 mil e 13.671 mil unidades. Se for levado em
conta o mesmo percentual de 16% de famílias, o excedente de 22.897 mil cestas
terá saído por R$ 1.556.996,00 milhão. Em 2009 foram adquiridas 56.169 mil
cestas de alimentos.
A investigação do MPF revelou indícios de desvio e venda de cestas básicas por
presidentes de sindicatos e líderes de acampamentos. As denúncias são
investigadas em inquéritos na Polícia Federal, que também apura suspeitas de
exploração da distribuição das cestas com cunho eleitoral por servidores do
Incra.
Além do recadastramento, o MPF determinou que a entrega de cestas de alimentos
seja realizada com o preenchimento de um Termo de Declaração que certifique a
moradia no acampamento. A entrega deve ser feita por servidores do Incra
diretamente aos acampados, com recibos que contenham nome, CPF e assinatura do
beneficiário.
Cada novo cadastro deve ser comprovado e comunicado ao Incra. Caso haja
irregularidades no cadastro de beneficiários, os responsáveis estarão sujeitos
a penalidades previstas na legislação criminal.
O MPF estuda a abertura de processos por improbidade administrativa contra os
diretores do Incra responsáveis pela distribuição das cestas básicas.
Entenda o caso
Investigação do Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul
(MPF/MS) apontou irregularidades na distribuição de cestas básicas pelo
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em quatro
acampamentos localizados no município de Dourados.
Em
julho de 2010, o MPF visitou acampamentos no município de Dourados. Das 297
famílias de trabalhadores rurais ali cadastradas, somente 16 efetivamente
moravam nesses acampamentos. 94% dos beneficiários apenas compareciam aos
locais para receber as cestas de alimentos.
Foram encontrados barracos praticamente abandonados, sem utensílios domésticos
e que não apresentavam qualquer indício de criação de animais ou plantações.
Verificou-se que a imensa maioria dos beneficiários apenas comparece aos
acampamentos para receber as cestas básicas. Foi encontrada até uma
"tabela de pontuação", destinada a premiar aqueles que permanecessem
acampados por maior período.
Estas cestas deveriam ser entregues para quem vive em situação de “insegurança
alimentar”.
No entanto, a investigação verificou que, em geral, os alimentos eram
distribuídos para moradores das cidades próximas que não se enquadravam neste
perfil.