Alimentado
pela internet e pela publicidade, o pôquer se difundiu e internacionalizou na
última década como passatempo para a maioria de seus praticantes. Para uma
elite de jogadores "ex-amadores", entretanto, pôquer virou plano,
ainda que arriscado, de carreira.
"O
objetivo é ficar empatado [no dinheiro], ganhando e perdendo pouco todos os
dias", afirma André Akkari, 36 anos, um dos melhores jogadores
profissionais de pôquer do Brasil pela internet. "Um dia você “estoura” e
ganha bastante". Entretanto, nem todos os dias são assim.
O
sucesso do pôquer pode ser comprovado no torneio Latin American Poker Tour
(LPTA) que ocorre até este domingo (20) na capital paulista. O evento reuniu
536 participantes, parte deles selecionados on-line.
Segundo
Celso Forster, gerente para o país de um site de pôquer on-line e um dos
organizadores do evento, o aumento da procura pelo esporte se deve ao
"efeito Moneymaker"."Foi quando o amador Chris Moneymaker
conseguiu se classificar jogando pela internet para uma competição e faturou
sozinho US$ 8,9 milhões em 2003.
A partir daí, as pessoas viram que era possível ganhar
um torneio e começaram a estudar pôquer e a participar de competições",
explica Forster.
De
acordo com o curitibano Alexandre Gomes, 28 anos, um dos campeões mundiais do
World Series of Poker, um dos torneios mais importantes de pôquer no mundo,
"nem sempre o que se ganha na mesa reflete o lucro que a pessoa tem".
"É necessário ter metas, perseguir o resultado em longo prazo. Em um
torneio ganhei US$ 1,7 milhões, mas jogo o ano todo para conseguir bons valores
em dinheiro."
Embora
o valor dos prêmios seja tentador, os profissionais afirmam que entrar no mundo
do pôquer exige dedicação, estudo e muito investimento. André Akkari, que joga
quase que exclusivamente on-line, afirma que participa de 20 torneios
simultâneos.
"São 20 janelas [do programa de pôquer] abertas ao mesmo
tempo mostrando as mesas de jogo. Não recomendo para nenhum iniciante". No
entanto, ele conta que já ganhou US$ 200 mil em um torneio pela internet.
"Tinha uma empresa de tecnologia e, como todo brasileiro, passei alguns
perrengues com o dinheiro. Hoje posso dizer que posso dar uma vida boa para
minha esposa e duas filhas".
Quando
começou a jogar pôquer "por diversão" em 2005, Alexandre Gomes diz
que foi jogando pela internet que ele começou a aprender mais sobre o jogo.
"Compreendi o mundo deste esporte e vi que é muito mais complexo do que
parece. Dizem que leva-se cinco minutos para aprender o pôquer e uma vida inteira
para entendê-lo". Hoje, ele joga apenas em eventos ao vivo, na "mesa
real".
Gomes,
que largou a advocacia e hoje dá palestras e viaja o mundo participando de
torneios de grande porte e diz ganhar muito dinheiro com o pôquer, afirma que é
preciso estudar muito. "Comprei muitos livros, estudo as mudanças do
esporte. A matemática é um dos pilares do esporte, mas ele também tem
estatística, habilidade, análise das pessoas. Não é fácil."
Daniela
Zapiello, 24 anos, há pouco tempo se tornou profissional, mas afirma que
consegue viver com os prêmios dos torneios on-line de pôquer. "Gosto de
jogar pela internet porque tem mais ação, é possível jogar em mais mesas, é
mais emocionante e agressivo", conta. "Já cheguei a ganhar US$ 20 mil
de prêmio em um torneio on-line e US$ 100 mil em outro ao vivo."
A
jovem, que diz viver bem apenas com o valor recebido de prêmios de torneios de
pôquer, explica que jogar pela internet pode ser perigoso. "Como você
participa de diversos torneios, é mais difícil manter o controle do
dinheiro."
Além
da jovem, alguns famosos são atraídos pelo jogo. É o caso do ex-jogador de
futebol Paulo Rink, que no Brasil jogou no Atlético Paranaense e no Santos e,
naturalizado alemão, serviu a seleção daquele país.
"Comecei em 2009 em
Mar del Plata [ no Uruguai], não sabia nada sobre pôquer e tive bom resultado.
Estou tentando e está dando certo. Não me dei bem aqui no torneio de São Paulo,
mas todos que jogam são muito legais". Ele conta que seu maior prêmio em
um torneio foi US$ 66 mil.
Legal ou ilegal?
O decreto de lei número 3.688 de 1941 proíbe qualquer jogo de azar no Brasil. O
pôquer profissional, como visto em campeonatos on-line e no LAPT, por exemplo,
não se enquadra nesta lei.
De acordo com o professor de Direito Financeiro e
Tributário da FAAP Alexandre Nishioka, a forma como o pôquer premia os
participantes é diferente do que se vê em cassinos clandestinos, onde o
dinheiro é apostado na mesa. "O jogador paga uma taxa de inscrição e
depois recebe um prêmio no final, do mesmo modo que tenistas pagam para entrar em um Grand Slam, por
exemplo".
O
deputado federal Regis de Oliveira (PSC-SP), relator do projeto que tentou
legalizar os bingos – rejeitado no Congresso – diz que o pôquer jogado pela
internet, mesmo com dinheiro apostado na mesa, não pode ser considerado ilegal.
"[Jogando] pela internet, não há lei que proíba. Não há como punir quem
ganha dinheiro com pôquer pela internet. Pode-se jogar pôquer com a máquina [no
estilo de caça-níqueis] e não exige habilidade".
Celso
Forster, da organização do LAPT, ressalta que pôquer não é jogo de azar.
"Você pode ganhar uma partida sem entender o esporte. Mas jogando 100
vezes contra alguém que joga bem, você não terá um bom desempenho, porque exige
saber matemática e estatística, é preciso ter controle emocional".
Ele
afirma que os profissionais do pôquer sofrem preconceito por conta de muitos
considerarem o pôquer como jogo de azar. "Exige muita habilidade".