O agricultor Luis Eleutério de Souza, 60 anos, morador da
comunidade de Queimadas, em Cumaru, agreste de Pernambuco, tem muito o que
comemorar no Dia Mundial da Água (dia 22 de março).
Há oito anos ele possui em
casa cisternas de placas que armazenam 16 mil litros de água. Ter esse recurso
disponível para sua família é uma conquista.
Antes do benefício, ele perdia
tempo para buscar água. “Acordava às 5h e caminhava até 6km para buscar água em barreiros. Hoje,
ganho esse tempo me dedicando mais à produção”, conta Eleutério, que conseguiu
até diversificar a produção e aumentar a renda da família.
O agricultor se junta a mais de 480 mil famílias no
Semiárido que coletam água para o consumo por meio das cisternas. Esse é o
resultado de um trabalho capitaneado pela Articulação do Semiárido no Brasil
(ASA), que congrega cerca de mil entidades da sociedade civil. O projeto
considera o acesso à água recurso fundamental para a segurança alimentar, para
o aumento da quantidade de alimentos produzidos e a diversificação de processos
produtivos locais.
Desde 2003, o Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome (MDS) apoia o projeto e as iniciativas de tecnologias sociais de
captação de água das chuvas. Das 480 mil cisternas construídas, 340 mil foram
apoiadas diretamente pelo MDS.
Nos primeiros anos, foi priorizado o investimento na
“primeira água” ou “água de beber”, ou seja, a água considerada alimento
fundamental para a manutenção da vida. Em 2007, o ministério passou a apoiar
projetos de “segunda água” ou “água de comer”, nos quais a água da chuva é
usada para a pequena produção familiar de alimentos.
A partir de 2009, as ações se ampliaram para atender
escolas da zona rural do Semiárido. A água, nesse caso, deverá melhorar as
condições de ensino nas escolas da região sem acesso regular à água. É a
chamada “água de educar”. A ação começou inicialmente na Bahia e se estendeu a
os outros Estados da região. O projeto não visa apenas construir tanques de
armazenamento, mas também conscientizar o cidadão quanto à convivência
sustentável com a região de Semiárido e oferecer educação alimentar para
professores, alunos e famílias da comunidade escolar.
Para a secretária nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional do MDS, Maya Takagi, o acesso à água para o consumo é uma ação ao
mesmo tempo emergencial e estruturante para as famílias que não têm acesso
regular a ela. “Emergencial porque muitas vezes é a única forma de a família
ter acesso à água sem perder tempo buscando-a a quilômetros de distância de
casa. Estruturante porque a família passa a conquistar certa autonomia em
relação à gestão do uso da água, mesmo que da chuva. Além disso, o tempo da
família, das mães e das crianças, é readequado para atividades como educação,
capacitação e mesmo lazer.”
E é isso que ocorre com a família de Maria Joelma Pereira,
que já enfrentou muitas dificuldades em busca de água no interior de
Pernambuco. “O mais importante é a questão da autonomia: água da gente
aproveita o tempo da gente”, diz, acrescentando que a cisternas contribuíram
até mesmo para a mudança no tipo de produção. “Passamos a trabalhar com
agroecologia para preservar o meio ambiente.” Joelmavive com o marido e os três
filhos na zona rural do município de Cumaru.
As 480 mil cisternas construídas no Semiárido beneficiam
2,4 milhões de pessoas. Além disso, já foram implantadas com o apoio do MDS
7.433 cisternas para produção de alimentos e 43 nas escolas. A meta do
ministério para 2011 é construir mais de 100 mil cisternas para o consumo
humano.
Tecnologias
A cisterna é uma tecnologia popular para captação e
armazenamento de água da chuva e representa solução de acesso a recursos
hídricos para a população rural do Semiárido brasileiro, que sofre com os
efeitos das secas prolongadas – que podem durar até oito meses. Esse tipo de
tanque permite armazenar 16 mil litros de água, o suficiente para família de
cinco pessoas beber e preparar alimentos. É construída com placas de cimento
que captam a água das chuvas do telhado, escoada para os reservatórios.
Os reservatórios identificados de segunda água servem para
apoio à agricultura familiar na produção de alimentos para autoconsumo. Família
que já tem a primeira água recebe esse outro benefício. São seis tipos de
reservatórios: cisterna calçadão, barragem subterrânea, tanque de pedra ou
caldeirão, barraginha, cisterna enxurrada e bomba d’água popular (BAP).
As cisternas nas escolas têm capacidade para guardar 32
mil litros de água potável para os alunos; as de produção, com sistema de
captação e armazenagem de água para irrigação de hortas escolares, comportam 50
mil litros.