"Se
você me perguntar se quero cobrir outra guerra", disse em julho passado à Folha o aclamado fotógrafo e
documentarista britânico Tim Hetherington, "a resposta é "nem um
pouco"". Mas ele não pôde ficar longe. Foi nos conflitos na Líbia que
Hetherington morreu, ontem, aos 41.
Ele
é ao menos o terceiro jornalista morto no país, cada vez mais perigoso para
repórteres. Hetherington foi atingido por tiros de morteiro que também feriram
mais três fotógrafos na cidade de Misrata (oeste).
O
americano Chris Hondros, da agência Getty, também morreu após ficar
hospitalizado. Guy Martin, da agência Panos, e Michael Brown, freelancer, foram
tratados por ferimentos mais leves.
Um
dos primeiros a informar do ataque foi o fotógrafo brasileiro André Liohn, que
publicou notas na internet, no site Facebook, a partir do hospital ao qual os
feridos foram levados. Liohn estava no grupo de jornalistas que sofreu o
ataque, mas não foi atingido.
Misrata
está sob controle de rebeldes anti-Muammar Gaddafi e sitiada por forças do
governo, que a atacam continuamente. Ao menos sete civis líbios morreram, assim
como um médico ucraniano, e cerca de 120 pessoas ficaram feridas nos
bombardeios de ontem.
Há
pouco mais de uma semana, vários jornalistas que estavam cobrindo os confrontos
no leste decidiram driblar pelo mar o bloqueio terrestre imposto pelas forças
de Gaddafi. Liohn e Hetherington estavam no grupo que chegou a Misrata após uma
travessia de mais de 30 horas no golfo de Sirte.
As
últimas afirmações de Hetherington no microblog Twitter diziam: "Na
sitiada cidade líbia de Misrata. Forças de Gaddafi bombardeiam indiscriminadamente.
Nenhum sinal da Otan [aliança militar ocidental]."
RUMOS
Com
carreira sólida, ele ganhou quatro prêmios World Press, inclusive o cobiçado
"Foto do Ano", em 2007.
Mas
seu nome só ficou mundialmente conhecido em 2010, por "Restrepo", um
documentário feito com o jornalista Sebastian Junger na guerra do Afeganistão.
"Restrepo"
foi o resultado de uma imersão entre maio de 2007 e julho de 2008. Além de
vencer no festival de Sundance, concorreu ao Oscar neste ano.
Quando
falou com a reportagem sobre o filme, em um café em Washington, Hetherington
estava com outro estilo de vida.
Vivendo
no Brooklyn, em Nova York,
colaborando para a revista "Vanity Fair" e já recuperado de uma perna
estilhaçada durante um ataque do Taleban, confessou estar muito satisfeito por
trocar a poeira do Oriente Médio pelas premiações em Cannes.
E
pensava em fazer uma transição para trabalhos de ficção.
Mas
não escondeu que "era muito fácil ficar viciado" em guerras.
"Não pela adrenalina, mas porque há várias emoções cristalizadas em um
espaço bem definido."
Seus
trabalhos mais famosos foram feitos em conflitos, muitos deles na África.
Passou muito tempo na Libéria, em
Serra Leoa e na Nigéria.
Simples
e aberto, "Hetherington era amplamente respeitado por seus colegas por sua
coragem e camaradagem", nas palavras da "Vanity Fair".