Quinta-feira, 21 de Abril de 2011         09h19        138
Fotógrafo morto na Líbia dizia não querer cobrir mais guerras
Folha/PCS

"Se você me perguntar se quero cobrir outra guerra", disse em julho passado à Folha o aclamado fotógrafo e documentarista britânico Tim Hetherington, "a resposta é "nem um pouco"". Mas ele não pôde ficar longe. Foi nos conflitos na Líbia que Hetherington morreu, ontem, aos 41.

Ele é ao menos o terceiro jornalista morto no país, cada vez mais perigoso para repórteres. Hetherington foi atingido por tiros de morteiro que também feriram mais três fotógrafos na cidade de Misrata (oeste).

O americano Chris Hondros, da agência Getty, também morreu após ficar hospitalizado. Guy Martin, da agência Panos, e Michael Brown, freelancer, foram tratados por ferimentos mais leves.

Um dos primeiros a informar do ataque foi o fotógrafo brasileiro André Liohn, que publicou notas na internet, no site Facebook, a partir do hospital ao qual os feridos foram levados. Liohn estava no grupo de jornalistas que sofreu o ataque, mas não foi atingido.

Misrata está sob controle de rebeldes anti-Muammar Gaddafi e sitiada por forças do governo, que a atacam continuamente. Ao menos sete civis líbios morreram, assim como um médico ucraniano, e cerca de 120 pessoas ficaram feridas nos bombardeios de ontem.

Há pouco mais de uma semana, vários jornalistas que estavam cobrindo os confrontos no leste decidiram driblar pelo mar o bloqueio terrestre imposto pelas forças de Gaddafi. Liohn e Hetherington estavam no grupo que chegou a Misrata após uma travessia de mais de 30 horas no golfo de Sirte.

As últimas afirmações de Hetherington no microblog Twitter diziam: "Na sitiada cidade líbia de Misrata. Forças de Gaddafi bombardeiam indiscriminadamente. Nenhum sinal da Otan [aliança militar ocidental]."

RUMOS

Com carreira sólida, ele ganhou quatro prêmios World Press, inclusive o cobiçado "Foto do Ano", em 2007.

Mas seu nome só ficou mundialmente conhecido em 2010, por "Restrepo", um documentário feito com o jornalista Sebastian Junger na guerra do Afeganistão.

"Restrepo" foi o resultado de uma imersão entre maio de 2007 e julho de 2008. Além de vencer no festival de Sundance, concorreu ao Oscar neste ano.

Quando falou com a reportagem sobre o filme, em um café em Washington, Hetherington estava com outro estilo de vida.

Vivendo no Brooklyn, em Nova York, colaborando para a revista "Vanity Fair" e já recuperado de uma perna estilhaçada durante um ataque do Taleban, confessou estar muito satisfeito por trocar a poeira do Oriente Médio pelas premiações em Cannes.

E pensava em fazer uma transição para trabalhos de ficção.

Mas não escondeu que "era muito fácil ficar viciado" em guerras. "Não pela adrenalina, mas porque há várias emoções cristalizadas em um espaço bem definido."

Seus trabalhos mais famosos foram feitos em conflitos, muitos deles na África. Passou muito tempo na Libéria, em Serra Leoa e na Nigéria.

Simples e aberto, "Hetherington era amplamente respeitado por seus colegas por sua coragem e camaradagem", nas palavras da "Vanity Fair".

 

 

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