Neste
mês, a Câmara dos Deputados aprovou a realização de um plebiscito para a
população do Pará decidir se concorda com a criação de dois novos Estados: o do
Carajás e o do Tapajós. Mas a mudança no mapa do Brasil não para por aí.
O
Congresso tem propostas para criar 11 unidades da federação, entre Estados e
territórios. E, se forem aprovadas, o país passará de 26 para 33 Estados e
criará quatro territórios.
A
região Norte sofreria a maior mudança em sua geografia porque, além do
desmembramento do Pará, abrigaria os quatro territórios: Rio Negro, Solimões,
Juruá e Oiapoque. No Nordeste, são três ideias: o Estado do Maranhão do Sul, o
da Gurgueia (desmembramento do Piauí) e o do Rio São Francisco (separação de
parte da Bahia). Já no Centro-Oeste, o movimento se concentra no Estado do Mato
Grosso, onde podem surgir duas novas divisões: Mato Grosso do Norte e Araguaia.
Os
movimentos de separação já têm mais de 20 anos, explica o geógrafo Gilberto
Rocha, da UFPA (Universidade Federal do Pará). Durante as discussões para
elaboração da Constituição de 1988, regiões manifestaram interesse em se
tornarem independentes. Uma delas é o atual Tocantins, que pertencia à Goiás.
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Naquele contexto, emergiram várias propostas de divisão do território nacional.
Praticamente em todas as regiões surgiram movimentos com essa perspectiva.
Isso, em parte, pode ser explicado em função de que a matéria foi colocada em
segundo plano durante todo o regime militar.
O
pesquisador lembra que houve algumas modificações durante a ditadura, como a
criação do Estado do Mato Grosso do Sul e a unificação do Rio de Janeiro, mas
elas não foram tratadas em nível nacional.
Segundo
Rocha, durante o regime militar houve uma modificação substancial no povoamento
e nas formas de uso do território brasileiro, com o processo de modernização do
país. Surgiram novas fronteiras de povoamento, novas cidades e também novos
pólos de poder. Muitas dessas fronteiras, principalmente na região Norte, foram
estimuladas pelo governo. O geógrafo diz que, só no Pará, surgiram mais de 70
cidades naquele período.
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Na parte oeste da Amazônia Ocidental, onde os processos [de povoamento] não
foram intensos, há propostas de criação de novas estruturas
político-administrativas, os territórios, que vêm de cima para baixo e não de
reivindicações locais.
Os
territórios federais deixam de fazer parte de um único Estado para integrar a
União. De acordo com a Constituição, as contas passam a ser submetidas ao
Congresso Nacional e, caso o território tenha mais de 100 mil habitantes, um
governador pode ser nomeado (sem realização de eleições). Segundo o geógrafo, a
criação dos territórios está muito relacionada à proteção de fronteiras.
O
deputado Sebastião Bala Rocha (PDT-AP), autor do projeto sobre o Território
Federal do Oiapoque, diz que, na época em que ele foi apresentado, em 2001, a região vivia uma
“situação de abandono” e precisava de mais investimentos para desenvolvimento e
proteção da fronteiras do país. O deputado admite, no entanto, que a proposta
está parada e perdeu a força, porque a região passou a receber mais recursos,
inclusive do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
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O governo [federal] não tem a intenção de criar novos territórios. Não é um
assunto que esteja na pauta da Câmara ou do governo.
Novos Estados
O
geógrafo Gilberto Rocha explica que os movimentos de criação de novos Estados
estão ligados a grupos emergentes, que reivindicam o controle desses
territórios.
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No Pará, há mobilização de poderes locais que emergiram nos últimos 30 anos.
São populações que emigraram do Brasil inteiro.
Ele
ressalta que não é possível dizer que os movimentos sejam apenas da elite e que
não haja interesse da população e o desejo de autodeterminação.
O
deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA), um dos principais articuladores para
criação do Estado do Carajás, afirma que há mais de 20 anos, a região “sonha
com o desenvolvimento”. Segundo ele, apesar dos investimentos do setor privado
ali, o Estado é ausente.
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Não há bom governador que dê conta de um Estado desse tamanho. [...] O Pará não
tem capacidade de gestão daquela região. Há a ausência absoluta de Estado.
Para
ele, o atual crescimento do Tocantins, que era conhecido como um “corredor de
miséria”, estimula a população de parte do Pará a pedir a emancipação.
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A classe política é uma classe, aqui no Brasil e no mundo todo, muito
desacreditada. Há esse preconceito, quando você fala em criar um novo Estado,
que é oportunismo e forma de fazer farra com o dinheiro público. Mas há gente
decente na classe política.
Segundo
o deputado, o novo Estado não vai precisar de “nenhum centavo da União”, porque
os recursos que já vão para o Pará seriam repartidos e, além
disso, arrecadação do Carajás seria suficiente para mantê-lo. A mineradora
Vale é citada como uma das grandes investidoras na região.
Para
Ribamar Alves (PSB-MA), que defende a criação do Maranhão do Sul, a distância
da capital a determinadas regiões do Estado dificulta a gestão.
- São Luís fica em uma ilha
isolada, muito distante do sul. As ações públicas têm dificuldade de chegar na
outra ponta.
O deputado federal também
diz que o novo Estado não sairia caro para a União. Para ele, os altos custos
são “exagero da imprensa”.
Para o professor Gilberto
Rocha, o tamanho em si de um Estado não é uma justificativa para desmembrá-lo.
Em geral, há carência de infraestrutura para permitir melhor comunicação e
integração regional. Com essas melhorias, segundo ele, seria possível pensar
uma gestão descentralizada, que desse mais autonomia a diversas regiões.
- O mundo caminha para a
integração e não necessariamente para o afastamento.