Para
surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma
vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo
acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua. Jornalistas
desinformados abrem um livro didático, lêem metade de meia página e saem
falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles
mesmos pensam.
Polêmica?
Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos
que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados
e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística
e do seu tratamento em sala de aula.
A
variação linguística é parte constitutiva das línguas humanas. O que significa
isso? Significa que nenhuma língua humana, por menor que seja o número de seus
falantes, é uma entidade homogênea, compacta, invariável. Na verdade, um dos
postulados básicos da sociolinguística (disciplina científica que mais se
dedica ao estudo da variação) é "toda língua é um feixe de
variedades".
Nesse
sentido, podemos até dizer que a palavra "língua" é um substantivo
coletivo: sob esse rótulo se abrigam dezenas e dezenas de modos de falar essa
língua que variam segundo diversos fatores -- a classe social, o sexo do
falante, a idade, o grau de instrução formal, a profissão, a etnia, as redes
sociais em que ele circula etc. A norma codificada nas gramáticas é apenas um
modelo idealizado de língua, inspirado nos usos de um punhado de escritores do
passado. Assim, ela deixa de fora 99% de todos os fenômenos gramaticais que de
fato estão em ação na língua viva.
Somente
com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas
“classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir
alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de
docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses
mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes,
não é feio, nem errado, nem tosco.
Enquanto
não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto
de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias,
enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com
gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com
essas situações no mínimo patéticas.
A
principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles
da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva
contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em
ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e
o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.
Darwin
nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele
disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um
ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao
fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem
do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga
até hoje.
Da
mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou
escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes
das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua
comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm
tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa
automaticamente combater a outra.
Defender
o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à
escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela
aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio,
mas é preciso repetir isso a todo momento.
Não
é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque
essa regra gramatical já faz parte da língua materna de 99% dos nossos
compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque
ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro
e pode ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam
“errado”. É dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que
eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la
também.
O
problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem
admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra
óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos
brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos
pingados).
O
mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver
os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a
defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham
que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da
GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é
que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a
pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?"
(*)
Marcos Bagno é professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da
Universidade de Brasília, doutor em filologia e língua portuguesa pela
Universidade de São Paulo, tradutor, escritor com diversos prêmios e mais de 30
títulos publicados,[1] entre literatura e obras técnico-didáticas.