A dengue
é uma das doenças de maior impacto na saúde pública do Brasil. De acordo com a
Secretaria de Estado de Saúde (SES/MS) somente em 2011 já foram notificados
mais de 12.500 casos e 03 óbitos confirmados em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, somam
mais de 4.000 casos, até agora.
O
número constante de casos da doença no Brasil vem alertando profissionais de
saúde e instigando novos estudos na área. Na UFMS, por exemplo, uma pesquisa
financiada pela Fundect e desenvolvida pelo professor Antônio Pancrácio de
Souza, do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, da UFMS, estuda os hábitos
alimentares do mosquito Aedes aegypti - transmissor da Dengue, bem
como o uso eficiente de um inseticida de origem natural.
Pancrácio
explica que o primeiro passo da pesquisa foi perguntar em diversas
floriculturas de Campo Grande quais eram as plantas mais vendidas para uso em residências. Foram
elencadas sete plantas e, em seguida, observados em laboratório os hábitos
alimentares do mosquito diante de cada uma destas plantas. "Já era sabido
que as orquídeas têm a capacidade de armazenar água, formando criadouros para
os mosquitos adultos depositarem seus ovos. A grande surpresa foi descobrir que
a planta "Coroa de Cristo" (Euphorbia milii), bastante popular em
residências do Brasil, é uma excelente fonte de néctar para o mosquito que se
alimenta e sobrevive tranquilamente", afirma. A descoberta foi feita pela
orientanda de Pancrácio, Nathalia Cavichiolli de Oliveira.
A
planta Coroa de Cristo se mostrou excelente para a biologia da espécie porque
oferece nectários florais e extraflorais em uma arquitetura que facilita a
exploração do inseto. Segundo o professor, as plantas ornamentais presentes em
nossos quintais podem favorecer a sobrevivência dos mosquitos adultos e isso deve
servir de alerta tanto para a população, como também para as autoridades em
saúde, que poderão observar e identificar outras plantas de diferentes regiões
brasileiras que também tenham características semelhantes à Coroa de Cristo.
"Estamos padronizando os experimentos nesta planta, de modo a servir como
modelo para testes com outras espécies", justifica.
O
professor ressalta que o mosquito A. aegypti é antropofílico, ou
seja, tem preferência pelo sangue humano a qualquer outra fonte de sangue, daí
explica-se a presença dele em grande quantidade nos centros urbanos e, mais
raramente, no meio rural.
Além
disso, já está comprovado que, se o A. aegypti se alimentar somente
de sangue humano, conseguirá manter sua longevidade e fecundidade de ovos para
perpetuar a espécie. É importante lembrar que a fêmea do mosquito precisa se
alimentar de sangue para a maturação dos seus ovos. "Na próxima etapa do
projeto serão observados e delimitados os horários mais propícios para
alimentação do mosquito. Para isso, os alunos da iniciação científica irão
revezar na observação dos mosquitos em laboratório", afirma.
Outro
ponto estudado na pesquisa de Antônio Pancrácio com a acadêmica de Iniciação
Científica Natália Aguiar Paludetto é a manipulação do Cardol - um produto
químico de origem natural, obtido por meio da castanha de caju e que
se mostrou como um eficiente larvicida. Na UFMS, inclusive, dois professores do
Departamento de Química - Denis Pires de Lima e Adilson Beatriz já patentearam
uma técnica da síntese do Cardol. Assim, "abre-se a perspectiva para a
manipulação da síntese do cardol de modo a torná-lo o menos tóxico possível ao
ambiente, ou, ainda, aumentar o seu efeito residual, o que é crucial para o
combate ao mosquito", conclui.
O
professor Pancrácio explica que durante os trabalhos com compostos naturais foi
aprimorada uma técnica de testes inseticidas mais adequada para o trabalho com
esses compostos, tendo também submetido um artigo científico a respeito.
Em
12 meses de pesquisa e contando com a colaboração de dois alunos de Iniciação
Científica, Antônio Pancrácio de Souza já realizou cerca de 70% do trabalho
previsto no início do projeto. Além da prática em laboratório, o grupo
participou de congressos na área de entomologia que destacam a importância de
se conhecer a fundo os hábitos do mosquito da Dengue, a fim de melhor
combatê-lo.