(*)
Paulo Duarte
As
manchetes nos jornais são o termômetro da incapacidade que temos em lidar com o
aumento desenfreado e a precocidade no consumo de bebidas alcoólicas.
A
cada dia nos assustamos com os mais variados tipos de violências provocados
pelo exagero e a compulsão pela bebida. São notícias informando sobre mulheres
e crianças espancadas por seus maridos e pais alcoolizados.
Motoristas
enlouquecidos pelas ruas e que ao beberem se tornam (ou pensam se tornar) os
“reis do asfalto”. São eles os principais responsáveis pelo crescente número de
acidentes.
Jovens
que, para curtirem uma “balada legal” acreditam que beber até quase cair os
deixa mais livres, mais desinibidos ou mesmo intocáveis. O consumo do álcool
sempre fez parte do cotidiano das pessoas.
O
problema é o exagero e a apologia que hoje se faz das bebidas.
Acredito
que um dos fatores do consumo de álcool tão exacerbado é a veiculação, sem
limites, das propagandas que incentivam essa prática.
Nos
horários nobres da TV é comum vermos uma mídia atraente, envolvente, mostrando
homens, que muitas vezes não correspondem aos padrões de beleza estabelecidos
pela sociedade, se “dando bem” com mulheres belíssimas, pelo simples fato de
estarem num bar, bebendo a cerveja da moda.
Ao
ver essas propagandas, fico imaginando o que passa pela cabeça de uma criança
ou de um adolescente que vê seus ídolos, sejam eles artistas ou atletas,
protagonizando nesses comerciais a personificação da pessoa bem sucedida,
descolada e que pode ter tudo de bom da vida só porque está bebendo. Dá a
impressão de que quem não bebe “fica por fora”. Pior ainda, quando ídolos do
esporte incentivam o consumo de bebidas alcoólicas como se fosse algo
compatível com a prática desportiva.
Hoje
se faz com as bebidas, o que se fazia, nos idos de 1980, para incentivar o
consumo de cigarro. Quem não se lembra das imagens associadas à liberdade e ao
sucesso que eram a marca de todas as indústrias fabricantes do produto? Ninguém
pensava nas conseqüências do uso excessivo do cigarro, até que os índices de
doenças como cânceres, efizemas pulmonares e outras doenças respiratórias
relacionadas ao fumo começaram a crescer de forma alarmante.
No
início não havia advertências quanto ao hábito de fumar. Pelo contrário,
existia uma “glamourização” do fumo. Por pressão das entidades ligadas à saúde
e outros segmentos da sociedade, foram feitas campanhas agressivas contra o
cigarro. A divulgação de propagandas incentivando o hábito foi proibida nos
horários nobres da TV e também durante eventos esportivos. Nas embalagens do produto,
tornou-se obrigatória a impressão de imagens chocantes do que acontece com o
usuário quando o consumo é exagerado.
Por
isso defendo que as campanhas de orientação e prevenção ao consumo de drogas
devem ser intensificadas. Atenção especial deve ser dada às drogas lícitas
(bebidas alcoólicas), pois elas podem ser a porta de entrada para as outras
drogas como a maconha, a cocaína, o crack, etc.
As
chamadas baladas “open bar”, onde o álcool é consumido sem limites, contribuem
para situações que não podemos, de forma alguma, julgar corriqueiras, como as
cenas exibidas em rede nacional de um jovem que foi abordado pela polícia e
que, de tão embriagado, caiu várias vezes no chão, até que ali ficou,
sucumbindo aos efeitos maléficos do álcool ingerido.
Concordo
que a fiscalização, a repressão ao tráfico de drogas e a punição aos exageros
cometidos por pessoas alcoolizadas devam sim ser realizados. No entanto, não
podemos nos esquecer de que a prevenção e a educação são a nossa maior arma
contra essa “epidemia”. E educação e prevenção também passam pela família,
escola e convívio social. Temos sim é que falar abertamente sobre o assunto,
sem preconceitos.
Por
enquanto estamos “permitindo” que a mídia tome o nosso lugar como pais,
educadores e sociedade que deseja o bem comum. A apologia ao consumismo é o
principal vetor desse poder. Sou um árduo defensor da liberdade em todos os
sentidos. Porém, não podemos confundir liberdade de expressão e comunicação com
o verdadeiro “vale tudo” midiático que estamos submetidos.
(*)
Paulo Duarte é economista, fiscal de rendas e Deputado Estadual (PT-MS).