Mato Grosso do Sul é referência na organização de redes de
atenção à saúde. O modelo de ordenamento de toda a cadeia de atendimento ao
cidadão está em fase de consolidação na Macrorregião de Dourados e já chamou a
atenção de gestores de saúde de outras partes do Brasil.
No segundo semestre deste ano e no ano que vem o Estado,
através da Secretaria de Saúde (SES), pretende alavancar a mesma organização em
rede nas duas outras macrorregiões em que se divide o Estado: a Macrorregião de
Três Lagoas e a Macrorregião de Campo Grande.
Durante o 27º Congresso Nacional de Secretarias Municipais
de Saúde (Conasems) e O 8º Congresso Brasileiro de Saúde, Cultura de Paz e Não
Violência, realizado na última semana, em Brasília, a secretária de Estado da
Saúde, Beatriz Dobashi, recebeu elogios e manifestação de interesses tanto do
Ministério da Saúde quanto de outros estados brasileiros pela forma como está
sendo organizada em um amplo território da região sul de Mato Grosso do Sul a
rede de linhas de cuidados prioritárias: cuidado materno infantil; saúde
mental; atenção à pessoa deficiente; doenças
crônico-degenerativas; e urgência e emergência. A metodologia utilizada,
com toda a sistemática de oficinas, reuniões, pactuações, e com a presença do
Estado coordenando, foi demonstrada aos participantes do Congresso. “Todo mundo
gostou, foi bastante elogiado, todos estão pedindo cópia de como nós
trabalhamos, querem informações, querem vir conversar com as equipes”, revela
Dobashi.
Pacto e organização
A experiência apresentada pela secretária no Congresso tem
como base uma ação importante adotada já em 2007, no início da gestão do
governador André Puccinelli, quando foi celebrado com os 78 municípios um novo
Pacto pela Saúde. Contando com 100% de adesão das Prefeituras, o Pacto já
incluía a reorganização das redes de atenção, e dentro dela a reorganização da
atenção hospitalar.
Para esse reordenamento, o Estado foi dividido em três Macrorregiões,
e em cada uma delas, as parcerias com Prefeituras, a conclusão e compra de
equipamentos para hospitais, a melhoria dos financiamentos por parte do governo
estadual, abriram caminho para começar a implantar essa rede organizada
hierarquicamente para o atendimento. Essa reorganização visa garantir que de um
cuidado básico como a imunização ou uma gravidez tranqüila até o atendimento
especializado para um bebê prematuro ou um transplante, cada unidade de saúde,
cada hospital intermediário, cada grande hospital, e cada instituição envolvida
na cadeia de atendimento esteja articulada e seja capaz de cumprir o seu papel.
“Nós mexemos nos contratos que o Estado tem com os
hospitais, melhoramos o financiamento, demos treinamento, ajudamos a reformar e
comprar equipamentos, construímos hospitais”, elenca a secretária de Saúde.
Entre os investimentos de maior porte em estrutura física estão a construção do
Hospital de Fátima do Sul; a conclusão do Hospital Regional de Nova Andradina,
com a equipagem, treinamento de pessoal
e compra de material; a construção do Hospital de Chapadão do Sul – também
equipado; e o Hospital de Ponta Porã, que está em obras há um ano e vai ser
finalizado até o fim de 2011.
“Esse hospital de Ponta Porã foi inteirinho reformado,
ganhou um bloco administrativo. Tem também o de Naviraí, para o qual havia uma
emenda do deputado federal Geraldo Resende para reformar o Pronto Socorro e
Laboratório, e o Estado garantiu a parte dos equipamentos, é uma obra que
também está terminando. Além de Campo Grande, onde reorganizamos todo o
Hospital Regional, ajudamos em vários pontos o Hospital Universitário, temos
ajudado bastante a Santa Casa, enfim, nós aplicamos recursos próprios na rede
hospitalar para melhorar essa atenção”, diz a secretária estadual de Saúde.
Macrorregiões
A experiência de reorganizar as redes de serviço pensando
nas linhas de cuidados prioritários tem que acontecer por região, explica
Dobashi. E com diversos investimentos feitos por todas as regiões, o Estado deu
início ao processo efetivo desse ordenamento.
Mato Grosso do Sul trabalha com três Macrorregiões, que se
subdividem em 11 microrregiões, e contam ainda com outros municípios inseridos.
Foi na Macrorregião de Dourados que teve início em fevereiro de 2011 o
ordenamento da rede de cuidados prioritários. Esse trabalho vai ser concluído
no próximo mês de agosto, e foi essa experiência que a SES levou para o
Conasems e que recebeu reconhecimento como atuação modelo.
Nessa Macrorregião estão quatro microrregiões, formadas
por um município sede e outras cidades do entorno: as microrregiões de Nova
Andradina, de Naviraí, de Ponta Porã, além da própria Dourados. “Quando se fala
em organizar rede de serviços significa definir quem fará o quê naquela
macrorregião. Existem municípios que fazem a atenção básica; alguns, maiores,
conseguem oferecer a atenção especializada. Para uma necessidade mais complexa,
tem que ter atendimento pactuado na região. Um paciente que sente uma dor forte
no peito, por exemplo, precisa ter o atendimento desde a atenção básica, até o
serviço disponível de cardiologia”, cita Dobashi.
A idéia é organizar em rede cada uma das chamadas linhas
prioritárias de atenção. Na linha da saúde mental, por exemplo, um paciente que
tem um surto por uso de drogas, vai passar por toda a rede de atendimento,
incluindo assistência básica, desintoxicação, acompanhamento posterior, ações
que demandam funcionamento articulado entre unidades de saúde de diferentes
localidades para completar todo o atendimento de que precisa.
O mesmo acontece na linha materno infantil, quando a rede
deve estar organizada para atender de forma encadeada desde o básico, até no
especializado – quando a gestação for de risco – ou quando um bebê de baixo
peso e prematuro necessitar de encaminhamento para UTI neonatal. “Funciona
assim, com cada um usando a estrutura de serviços disponíveis e identificando
oportunidades viáveis de aperfeiçoar. Se nós identificamos que em Aquidauana,
por exemplo, há um pequeno hospital, onde podemos colocar mais cinqüenta mil
reais por mês e a Prefeitura contratar dois ortopedistas, passamos a atender
trauma”, exemplifica novamente a secretária de Saúde.
Dourados
Para fazer a montagem das redes de atenção na Macrorregião
de Dourados, diversas ações foram colocadas em prática desde fevereiro. “Porque
não basta só instalar o serviço, é preciso combinar com as Prefeituras, tem que
fazer financiamento, fazer contratos, treinar pessoal, discutir, é toda uma
pactuação mesmo”, diz a secretária Beatriz. Nesses meses, foram realizadas seis
oficinas em cada microrregião, uma oficina com todos os integrantes da
macrorregião, ministrados cursos de gestão, articuladas reuniões com
prefeituras e conselhos municipais, montadas propostas de treinamento já para o
orçamento do ano que vem, melhorados os contratos com hospitais, entre outras
ações decorrentes dessa organização.
A metodologia utilizada, com modelo de oficinas, reuniões,
pactuações, e com a presença do Estado na coordenação fez com que o trabalho
desenvolvido por Mato Grosso do Sul despertasse o interesse de outros gestores
de saúde. Conforme a secretária Dobashi, o próprio Ministério da Saúde, que
está revendo os repasses que faz para os Hospitais Universitários e quer ter
contratos de prestação de serviços diferentes, se interessou pelo fato de Mato
Grosso do Sul ser o único estado que já “colocou o HU na mesa pra fazer parte
da rede, para ser referência”.
Isso aconteceu porque o HU da UFMS, em Campo Grande, está
integrado no trabalho que a SES faz com a Santa Casa e o Hospital Regional; e o
HU da UFGD, em Dourados entrou agora nesse trabalho em rede. No dia 11, durante
o Congresso em Brasília, a secretária estadual, os secretários municipais e
representantes dos dois HUs participaram de uma reunião com o Ministério onde
foi detalhada essa parceria.
“Eles ficaram impressionados e vão aumentar os recursos
dos dois hospitais universitários por conta desse processo que a gente tem aqui
de organização dos serviços”, revela a secretária estadual de Saúde. “Mas essa
conversa nos outros estados é muito difícil, porque muitos hospitais se apegam
à questão de que sua missão é só de ensino. Aqui nós já ultrapassamos essa
fase, temos parceria, porque o governo do Estado apoia os hospitais, repassa
recurso, dá treinamento, doa equipamento, ajuda na reforma. Isso principalmente
aqui em Campo Grande.
E Dourados agora está retomando, agora que está recomeçando.
Até por isso nós pudemos iniciar em fevereiro o trabalho de organização da
rede”.
A Macrorregião de Dourados foi a primeira porque concentra
uma população de quase 800 mil habitantes - em termos de rede de serviços é
quase metade do Estado, e estando organizada a rede alivia muito da demanda
para a Capital.
Entre setembro e dezembro deste ano, os mesmos
procedimentos de organização das redes vão ser desencadeados na Macrorregião de
Três Lagoas, que se subdivide nas microrregiões Paranaíba e Três Lagoas e tem
mais 11 municípios. No ano que vem, será a vez da Macrorregião Campo Grande,
que engloba as microrregiões Coxim, Corumbá, Jardim, Aquidauana e a própria Capital,
com seus municípios vizinhos.