Hoje
o Instituto Oswaldo Cruz divulgou um estudo que confirma o vírus do Oeste do
Nilo (WNV, em inglês) em cavalos no Pantanal. Esta “nova” doença pode ser
transmitida a humanos por meio da picada do mosquito infectado e causa a febre
do Oeste do Nilo, problema em países da Ásia e África.
Na
cadeia transmissora do vírus, o mosquito precisa ter se alimentado de aves
infectadas, geralmente aves migratórias, por isso a doença se espalha. No
continente americano, a doença chegou no final da década de 90 nos Estados
Unidos e se espalhou rapidamente pelas Américas do Norte e Latina. O Jornal
Correio do Estado publicou
no dia 10 de outubro de 2004 matéria especial sobre a prevenção contra a
doença, que já era preocupação mundial nesta época.
Há
relatos recentes de que o vírus tenha chegado na Colômbia, Venezuela e
especialmente na Argentina, onde anticorpos do vírus foram detectados em aves.O WNV foi isolado
pela primeira vez na América do Sul a partir da análise de cavalos mortos por
encefalite na Argentina, em 2006.
O
doutorando Alex Pauvolid-Corrêa, que iniciou o estudo durante o mestrado do
programa de pós-graduação de Medicina Tropical do IOC, fala em entrevista sobre
a importância da investigação para a vigilância epidemiológica da doença no
país e aponta os desafios a serem enfrentados para controlar a circulação do
vírus no Pantanal:
Evidências sorológicas foram
encontradas em cavalos do Pantanal. Além desses animais, outros reservatórios
foram analisados? A investigação será estendida aos pássaros?
De
acordo com o que vem sendo descrito em outros países onde há circulação de WNV,
a busca por eventuais hospedeiros amplificadores de WNV no Brasil deve
continuar sendo baseada em amostras de aves de áreas reconhecidas como rotas de
migração para algumas espécies. A pesquisa deverá envolver não somente a
pesquisa em espécies migratórias, como também em espécies residentes destas
regiões que compartilham as mesmas condições ecológicas locais. A vigilância
por WNV em aves que circulam no Pantanal seria muito importante, considerando
as evidências sorológicas da circulação de WNV em equinos da região. A detecção
de mortandade de diferentes espécies de aves foi utilizada como um importante
marcador da circulação de WNV nos EUA. Entretanto, no momento, nossas análises
estão sendo direcionadas para a tentativa de isolamento viral a partir de
amostras de mosquitos coletados no Pantanal em diferentes períodos e anos.
O vírus não foi encontrado nos
mosquitos analisados. Qual a explicação para este fato?
A detecção de arbovírus em mosquitos é difícil, mesmo em espécimes capturados
durante epidemias. Normalmente, apenas um percentual muito pequeno dos grupos
de mosquitos avaliados em um estudo é positivo. Considerando-se que na região
existe uma grande flutuação das populações de mosquitos de diferentes espécies
de acordo com a época do ano, um estudo mais abrangente envolvendo a captura de
um maior número de espécimes em diferentes períodos e anos foi conduzido. As
análises destas novas amostras estão em andamento para um melhor estudo da
circulação viral em diferentes espécies de potenciais vetores.
Qual é o risco do vírus causar surtos ou até epidemias como as que já
ocorreram no Hemisfério Norte? Existe algum fator que poderia alterar o perfil
de propagação do vírus?
Estabelecer um risco para a ocorrência de surtos ou epidemias por arbovírus em
um bioma, como o do Pantanal, que apresenta tantas características ecológicas
peculiares e próprias, é difícil. Entretanto, considerando alguns fatos
observados em outros modelos de transmissão vetorial de diferentes biomas, a
degradação ambiental através do desflorestamento, plantação de pastos exóticos
e modificação de coleções de água para atender a demanda da pecuária local
poderiam alterar as sensíveis relações ecológicas em equilíbrio na região, o
que poderia favorecer determinadas espécies potencialmente vetoras e
consequentemente ser considerado como um fator de risco para a ocorrência ou
intensificação de casos clínicos causados por infecção por arbovírus na região,
principalmente em populações animais como equinos e aves, considerando a baixa
densidade demográfica da região. Até o momento, a evidência sorológica da
circulação de WNV no Brasil se restringe a uma determinada área do Pantanal
brasileiro. Entretanto considerando-se a ocorrência de ciclos de transmissão de
WNV em diferentes áreas urbanas nos EUA, a vigilância para a circulação de WNV
em áreas urbanizadas no Brasil também precisaria ser considerada.