Crianças
e adolescentes que vivem com Aids no Brasil ganham uma nova esperança para o
tratamento da doença e a qualidade de vida. Nesta semana, o Ministério da Saúde
disponibiliza pelo SUS (Sistema Único de Saúde) o primeiro antirretroviral
(ARV) desenvolvido exclusivamente para o tratamento desses pequenos pacientes.
O
tipranavir também é o primeiro medicamento de resgate - quando o tratamento
inicial não apresenta mais resposta ou tem falha - adotado no país para
utilização em crianças menores de 6 anos de idade, segundo o Ministério. Até
então, o esquema de resgate terapêutico de 3ª linha era feito com ARV indicados
para adultos e utilizados por crianças como medida excepcional.
As
secretarias estaduais de saúde já receberam nota técnica sobre o medicamento,
que deve ser distribuído conforme a solicitação de cada Estado. Em Mato Grosso do Sul,
ele já é utilizado na formulação para adolescente por um menino de 13 anos.
A
aquisição do tipranavir é tida como um avanço no esquema de medicamentos dos
pacientes dessa faixa etária, já que ele é uma medicação indicada como 3ª linha
de tratamento, quando o esquema inicial de remédios não tem mais efeito no
organismo – a 1ª linha é composta por medicamentos mais usuais e utilizados em
tratamentos iniciais.
A
médica infectologista pediatra, Marcia Dal Fabbro, ressalta que o medicamento
na formulação para crianças representa uma conquista no tratamento dos
pacientes, principalmente, menores de 16 anos que não respondiam mais aos
esquemas de medicamentos.
Isso
reflete diretamente na melhoria da qualidade de vida, já que o organismo poderá
responder melhor ao tratamento com o combate da replicação do HIV e, sendo
assim, ficar menos suscetível ao contágio de outras doenças.
Ela
explica que muitas crianças já aos 11 anos não respondem a várias combinações
de medicamentos – coquetel – e anteriormente não tinham a opção de aderir ao
tratamento com o tipranavir, quando ainda não apresentavam o peso compatível
para a dosagem do comprimido – 35 quilos. Agora, a medicação será fornecida
para crianças sem exigência mínima de peso com a fórmula em xarope.
“Criança
que não respondia mais ao tratamento aos 11, 12 anos e não tinha mais o que
tomar. Chegavam a ter que esperar até os 16 anos – ou quando atingiam o peso
ideal para a dosagem - para entrarmos com o medicamento de resgate para
adolescente – tipranavir – ou outra fórmula para adulto”, diz.
A
médica esclarece que a maioria dos pacientes tem peso abaixo da sua idade por
apresentarem problemas de desenvolvimento e pouca massa muscular.
O
tipranavir em xarope será utilizado em combinação com a solução oral do
ritonavir, estes medicamentos são potencializados e inibem a replicação do HIV,
ajudando a reduzir a infecção das células saudáveis do organismo.
Conquista - Em Mato Grosso do Sul, o
garoto Salomão*, de 13 anos, foi o primeiro a ter o tipranavir incluído no
esquema de medicamentos. A droga foi prescrita após o organismo do menino não
responder aos outros ARV.
Em
meados de 2010, os exames de Salomão alertaram para a baixa imunidade do
organismo, que já não respondia as combinações de medicamentos. Com o organismo
indefeso, ele foi internado várias vezes com doenças respiratórias e outras
infecções.
Dal Fabbro
explica que a droga foi prescrita após testes com vários medicamentos para
analisar a resposta do organismo. No entanto, o ARV só foi liberado em março
deste ano após ser comprovado que Salomão, mesmo com recém completos 13 anos,
já tinha o peso compatível para a fórmula em comprimidos, já que a droga em
xarope – sem peso mínimo – ainda não estava disponível no Brasil.
Ele é
uma das crianças atendidas pela Afrangel (Associação Franciscanas Angelinas) –
Lar das Crianças com HIV/Aids, e a irmã responsável pela enfermaria, Marlene da
Silva, conta que foram cerca de quatro meses de espera para a chegada do
medicamento e que a melhora na saúde do garoto foi visível.
“O
Salomão passou por um período muito difícil, ficou doente várias vezes. Mas
agora está bem, respondendo a medicação. Sua imunidade voltou a subir”, diz.
O Lar
oferece gratuitamente assistência social, médica e pedagógica a crianças e
adolescentes com o vírus HIV de todo o Estado.
Além do
tipranavir, o garoto toma outros 6 medicamentos diferentes por dia. Ao todo,
são 13 comprimidos, mais duas injeções.
Panorama - O Ministério da Saúde oferece
13 drogas para crianças com Aids. O orçamento para o acesso universal aos
antirretrovirais no Brasil é da ordem de R$ 846,7 milhões e o investimento brasileiro
em ARV para crianças é de R$ 9,7 milhões.
Atualmente
existem no Brasil 4.006 menores de 13 anos em tratamento, sendo que 186 deles
estão utilizando medicamentos de 3ª linha. A secretaria estadual de saúde não
tem os dados sobre o número de crianças soropositivo em todo o Estado.
Praticamente
100% das transmissões nessa faixa etária são por meio das mães soropositivo,
que transmitem o vírus na gestação e parto ou quando amamentam os filhos.
Quando o tratamento é realizado adequadamente pela mãe, a chance do bebê
adquirir o HIV cai para níveis menores que 1%, segundo o Ministério da Saúde.
Serviço:
O Lar das Crianças fica na rua Seminário, 2.170 - Jardim Seminário. Quem quiser
mais informações sobre o atendimento no local ou quiser fazer doações pode entrar
em contato pelo telefone: 3365-0590.