A
Câmara dos Deputados pretende votar, na próxima quarta-feira (21), a Emenda
Constitucional 29. Uma proposta que fixa percentuais mínimos de investimentos
públicos na saúde da União, dos Estados e municípios. Enquanto o governo
argumenta que não tem mais dinheiro disponível, e que precisa criar uma fonte
nova de financiamento, especialistas alertam para a necessidade urgente de
aumentar a verba destinada à área.
De
acordo com o líder do governo na Câmara Federal, deputado Cândido Vaccarezza
(PT-SP), o Brasil precisa de, pelo menos, mais R$ 30 bilhões por ano para
resolver os maiores problemas do setor, considerando apenas os investimentos
federais. O valor representa 41,6% do que a União deve investir em 2011 (R$ 72
bilhões), segundo previsão do parlamentar, e quase 62% do que o Ministério da
Saúde investiu em 2008 (R$ 48,7 bilhões), quando foi feito o último balanço
geral de investimentos públicos no setor (com Estados e municípios).
Entretanto, para os especialistas Áquilas Mendes, professor de economia da
saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), e Lígia
Bahia, diretora da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e
professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), as estimativas do
governo estão muito abaixo da realidade.
Citando
um estudo de 2008 da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), da ONU
(Organização das Nações Unidas), Mendes diz que seriam necessários R$ 83
bilhões a mais por ano para a saúde. A presidente da Abrasco vai ainda mais
além nas contas.
“Esse
cálculo, de R$ 30 bilhões, é até modesto. Teríamos que fazer um cálculo assim:
quanto per capita queremos usar com saúde, não no termo voluntarioso, mas para
ter melhor saúde. Seriam necessários, mais R$ 150 bilhões, mais que o dobro do
que se gasta hoje. Essa estimativa foi feita com países com mesmo PIB (Produto
Interno Bruto), ou a soma de todas as riquezas do país”, explica Lígia.
A
divergência nas previsões varia de acordo com o que se pretende melhorar na
saúde e, justamente por isso, é praticamente impossível definir um “número mágico”
de quanto é preciso investir, diz o diretor da Cpes (Centro Paulista de
Economia da Saúde) e professor do departamento de medicina da Unifesp
(Universidade Federal de São Paulo), Marcos Bosi Ferraz.
“Em
alguns países desenvolvidos que possuem sistema universal de saúde, o
financiamento público está na ordem de 60% a 70% de tudo o que é investido.
Aqui no Brasil, o investimento público é em torno de 47%. Quando a gente compara
o que esses países investem com o que a gente investe aqui, nós temos uma
defasagem de 30 anos.
De
acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil investiu, em 2008, cerca de 3,6% do
PIB em saúde. Somando
os gastos do setor privado (planos de saúde e gastos particulares com saúde),
esse total chega a 8,4%, ou seja, quase a metade da proporção investida pelos
Estados Unidos (16%) e abaixo da média dos países da OCDE (Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que aplicam 9% de suas riquezas na
área.
Leila
Posenato Garcia, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea (Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada), concorda que a necessidade de verba para o setor
depende do que se pretende fazer com esse dinheiro. De acordo com dados do
instituto, a população que utiliza os serviços do SUS (Sistema Único de Saúde)
avalia que as maiores demandas por melhora são referentes ao atendimento em
hospitais (urgência e emergência) e em postos de saúde – as filas de espera
ainda são as maiores reclamações.
Proposta - Ao todo, União, Estados e
municípios destinaram quase R$ 109 bilhões em saúde em 2008, ainda segundo o
governo federal (últimos dados gerais disponíveis).
Para aumentar os recursos destinados ao setor, a emenda propõe, entre outras
coisas, obrigar o governo federal a investir 10% de sua receita corrente bruta em saúde. Atualmente,
não existe uma regra que fixa um percentual mínimo de aplicação, mas a União
deve investir sempre o mesmo valor do ano anterior, mais a variação do PIB
(Produto Interno Bruto, ou a soma de todas as riquezas produzidas no país). Já
os Estados e municípios, desde 2000, já precisam destinar 12% e 15% da renda,
respectivamente, na área.
Entretanto,
a fixação de um percentual mínimo pode não ser suficiente para atingir o mínimo
de R$ 30 bilhões considerados necessários. Por isso, o Congresso debate a
possibilidade de criar um novo imposto sobre movimentações bancárias, a CSS
(Contribuição Social para a Saúde), semelhante à extinta CPMF, para injetar
cerca de R$ 15 bilhões no sistema público de saúde anualmente.
De
acordo com o pesquisador da USP, porém, caso alguns pontos da Emenda 29 sejam
aprovados, como a DRU (Desvinculação de Recursos da União), que dá mais
liberdade ao governo para direcionar a verba para outras áreas , o valor
arrecadado com a CSS cai para R$ 8 bilhões, em média.
“Portanto
apesar dos vários esforços de criar uma nova contribuição social, essa aportaria
só R$ 8,2 bilhões. Não precisamos de 83 bilhões? Esse projeto é um engodo”, comenta
Mendes.
A criação de um novo tributo, bem como manter a
proposta de DRU, ainda dividem parlamentares, tanto na Câmara quanto no Senado
- para onde o texto será encaminhado após a aprovação pelos deputados. Criar um
novo imposto também não é consenso nem dentro do governo, que sabe que a medida
é impopular.