Se
a presidente Dilma Rousseff pretende mesmo colocar direitos humanos no centro
de sua política externa, terá um valioso auxílio a partir do início do ano. A
HRW (Human Rights Watch, ou Observatório dos Direitos Humanos) passará a ter
presença física no Brasil, com base em São Paulo.
Trata-se,
para quem não sabe, de uma legítima ONG ou seja uma Organização realmente
Não-Governamental, posto que seus USS$ 52 milhões de orçamento vêm, todos, do
setor privado. Nenhum centavo de governos.
A
"rationale" por trás da vinda para o Brasil apoia-se no seguinte
teorema:
1
- O Brasil (e também Índia e África do Sul, outros países em que a HRW está
igualmente se instalando) é uma democracia, com imprensa livre e judiciário
independente, que ganha crescente peso nos assuntos planetários.
2
- A HRW tem imensas dificuldades em atuar exatamente onde é mais necessária, ou
seja, nos países que são grandes violadores dos direitos humanos. Logo, seu
poder de pressão é limitado. Por isso, pretende pressionar governos como o do
Brasil para que estes, por sua vez, pressionem, digamos, a Síria, que é bola da
vez no noticiário internacional em matéria de violação em massa dos direitos
humanos.
A
propósito: tanto Iain Levine, vice-diretor executivo de Programas, como José
Miguel Vivanco, diretor-executivo para as Américas, dizem-se decepcionados com
a posição do Brasil em relação à Síria. Como se sabe, o governo brasileiro
hesita demais em aprovar resoluções mais duras de condenação ao governo sírio,
o que, ao menos do meu ponto de vista, contraria o compromisso da presidente em
colocar direitos humanos no centro da política externa.
Desconfiam,
os dois, que, entre esse compromisso e um viés anti-imperialista de alguns de
seus integrantes, o governo Dilma acaba sendo omisso. Explico o
anti-imperialismo: são as potências ocidentais que lideram o movimento na ONU
em favor de endurecimento com a Síria. O presidente Barack Obama, por exemplo,
disse, na assembleia-geral, na quarta-feira, que a questão, para os Estados
Unidos, é clara: "Ficaremos ao lado do povo sírio ou com seus
opressores?".
Já a presidente Dilma Rousseff não usou a palavra Síria em seu discurso, embora
tenha manifestado "veemente repúdio" às "repressões brutais que
vitimam populações civis".
Mas
a ação da HWR não se limitará ao plano internacional. Tem uma vertente interna,
no quesito segurança pública. Aqui, trata-se, como diz Vivanco, de demonstrar
que segurança pública não é, em absoluto, incompatível com o respeito aos
direitos humanos.
Na
realidade brasileira, nem sempre (ou raramente?) tem sido possível dar efetiva
segurança ao público sem atropelar direitos humanos. Eis um terreno minado,
posto que parece haver um crescente sentimento, na opinião pública, em favor de
um endurecimento na ação policial, mesmo que implique vítimas colaterais.
É
saudável, de todo modo, que venha uma instituição respeitável como a HRW para
colaborar nesse debate e também no outro, em torno da centralidade dos direitos
humanos na diplomacia brasileira.