O
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou nesta terça-feira (27) o registro
nacional do PSD (Partido Social Democrático), fundado pelo prefeito de São
Paulo, Gilberto Kassab. A decisão, por 6 votos a 1, permite que a nova sigla
filie candidatos e concorra nas eleições municipais de 2012.
Além
da relatora do processo, ministra Nancy Andrighi, votaram a favor do registro
os ministros Marcelo Ribeiro, Teori Zavascki, Arnaldo Versiani, Cármen Lúcia e
Ricardo Lewandowski. Contra, apenas o ministro Marco Aurélio Mello.
Com
a criação do PSD, o Brasil passa a ter 28 partidos políticos em atividade. Com a
decisão desta terça, o partido de Kassab poderá disputar as eleições
municipais, sob o número 55. Mas ainda há riscos aos planos do prefeito de São
Paulo para o pleito do ano que vem.
O advogado do DEM, Fabrício Medeiros, disse que vai recorrer contra a criação
do PSD no Supremo Tribunal Federal (STF). Diante de denúncias de fraudes na
coleta de assinaturas de apoio de eleitores, que marcaram o processo de
nascimento do PSD, a nova sigla corre também o risco de ter seu registro
impugnado caso alguma irregularidade seja comprovada na Justiça.
Depois de uma sessão marcada por embates na última quinta-feira (22), o
julgamento foi retomado nesta terça a partir do voto do ministro Marcelo
Ribeiro, que havia pedido vista. O impasse se criou diante das dúvidas de
alguns ministros quanto à autenticidade das assinaturas de apoio, exigidas por
lei e alvo de questionamentos durante o processo de registro. A lei exige a
assinatura de no mínimo 491 mil eleitores e o PSD apresentou 538.263
assinaturas, porém divididas em listas autenticadas apenas por cartórios
eleitorais e outras que foram consolidadas por TREs.
A
divergência principal ocorreu porque a Lei dos Partidos, de 1995, determina a
comprovação do apoio por meio dos cartórios eleitorais, mas uma resolução,
editada pelo TSE no ano passado, determina que os Tribunais Regionais
Eleitorais (TREs) devem emitir documentos para comprovar que o partido obteve o
apoio necessário. Mas a maioria dos ministros entendeu que as assinaturas
certificadas apenas por cartórios deveriam ser aceitas para comprovar os apoios
em nível naciona, o que a lei permite.
Em
seu voto, o ministro Ribeiro afirmou que não seria possível rejeitar as
assinaturas de apoio certificadas apenas pelos cartórios eleitorais, porque a
lei permite esse tipo de comprovação. Na interpretação do ministro, a única
razão para que os TREs consolidem as assinaturas é a criação do diretório
eleitoral no estado. Para Ribeiro, se o objetivo era apenas comprovar em nível
nacional o número de apoios, bastavam as certidões de cartórios eleitorais.
“Os TREs não consolidam apenas por consolidar. Não os compete examinar para
atestar apenas a sua regularidade. Exercem tal função como meio para atingir a
finalidade que é aprovação de juízo de valor sobre o diretório regional. Nessa
hipótese não vejo por quê aplicar a lei. A meu juízo não só a lei prescreve que
as certidões cartorárias serão entregues ao TSE como a resolução não contraria
tal regra”, afirmou Ribeiro.
O voto do ministro foi seguido pela maioria dos colegas. O ministro Teori
Zavascki já havia se pronunciado na primeira parte julgamento, sugerindo que
fossem investigadas as denúncias de irregularidades. Nesta quinta, no entanto,
ele mudou de voto e aprovou a criação da legenda.
“Para efeito de registro de diretório faz sentido que o tribunal [regional]
consolide, mas para efeito de comprovar o caráter nacional se exige muito mais
e é aqui que entraria a lei. E não há como negar que a lei admite essa prova
mediante certidão direta de cartório”, afirmou Zavascki.
Na primeira parte da sessão, a relatora do caso no TSE, ministra Nancy
Andrighi, já havia votado pela liberação do registro e, ao verificar as
assinaturas, afirmou ter feito uma “uma operação matemática” para afastar
possíveis duplicidades de assinaturas.
De
acordo com a contagem da relatora, o PSD apresentou 514,9 mil assinaturas
válidas. A ministra disse que mais de 27 mil apoios foram retirados por
problemas de formato das certidões dos cartórios eleitorais.
Nancy Andrighi afirmou que não analisou as denúncias de fraude apresentadas
durante o processo. Segundo ela, o Ministério Público poderá investigar se
houve crime eleitoral, depois de criado o partido.
“Eventuais índicos de ilícitos no processo de coleta de apoiamento estão
submetidos ao crivo do Ministério Público Eleitoral, titular da ação penal, que
poderá requerer a instauração de inquérito criminal”, disse a ministra
relatora.
Contrário
Único a votar contra a criação do PSD, o ministro Marco Aurélio Mello não
aceitou as assinaturas apresentadas pelo partido de Kassab sem a verificação
dos TREs. Para Mello, a nova legenda teria de ter seguido as regras tanto da
lei, quanto da resolução do TSE. O ministro defendeu a extinção do processo de
criação do PSD.
“Aprendi desde cedo que é muito difícil consertar o que começa errado e sempre
tive presente que no Direito, com princípios, institutos, o bem justifica o
fim, mas não o fim ao meio e que a segurança jurídica é o preço módico que
pagamos inclusive para viver em um estado democrático de direito e que a
segurança jurídica pressupõe o respeito irrestrito às regras”, disse Mello.
Fraudes
Entre as fraudes apontadas estavam troca de assinaturas por cestas básicas,
duplicidade de assinaturas e a inclusão de eleitores que já morreram na lista
de apoiadores exigidos por lei. A defesa negou as irregularidades (leia
abaixo).
A
vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, se posicionou contra a criação
do PSD na última quinta. Ela afirmou que as supostas fraudes denunciadas serão
investigadas pelas procuradorias eleitorais dos estados de São Paulo, Bahia,
Distrito Federal, Tocantins e Rio de Janeiro.
Depois de verificar todas os documentos do processo, Sandra Cureau voltou a
dizer que o PSD não apresentou o número mínimo de assinaturas, exigidos por
lei. Segundo ela, o partido de Kassab trouxe menos da metade da quantidade
necessária de apoios.
“Tanto para a Lei da Compra de Votos como para a Lei da Ficha Limpa, se
conseguiu após muitos meses 1 milhão de apoiamentos e ouço do partido
requerente que pretende aqui dizer que conseguiu em 6 meses 1 milhão de
assinaturas. É pelo menos estranha essa afirmativa levando em conta situações
em que o cidadão brasileiro estava extremamente envolvido”, disse a
vice-procuradora.
Os partidos DEM e PTB, que contestaram o registro do PSD, também falaram no
plenário contra a criação do partido de Kassab, ex-DEM. Segundo as legendas, o
PSD não cumpriu as regras eleitorais.
Defesa
Ainda na primeira parte do julgamento, na última quinta, o advogado do PSD,
Admar Gonzaga atribuiu as denúncias à “infiltração de adversários” para
atrapalhar o processo de criação do partido de Kassab.
“Algumas pessoas de má conduta, espertos querendo resolver logo o problema,
fizeram o que não deviam. Mas para isso há procedimento próprio após o registro
do partido par verificar se houve mesmo. Temos prova de houve forte processo de
infiltração de adversários no processo de coleta de assinaturas. [Essas
pessoas] Se apresentavam em nome de pessoas já falecidas, com título de
eleitor”, disse Gonzaga.
O advogado citou ainda uma lista de dificuldades que, segundo ele, teriam
atrasado os procedimentos de registro da nova sigla. Entre os problemas, foram
mencionadas a falta de preparo para dos cartórios eleitorais, a demora no
cumprimento do que determina as regras, e a falta de método para a checagem das
assinaturas nos estados.