Ao observar a falta de articulação entre pesquisas sobre o
mesmo tema, o professor Rivaldo Venâncio da Cunha idealizou em 2008 um projeto
que pudesse unir os pesquisadores e todos os estudos sobre a dengue em uma rede
de pesquisa. “Constatei que todos os que estudavam sobre a dengue eram pessoas
competentes, dedicadas à pesquisa, mas não conversavam com seus pares e não
percebiam que o estudo de outro professor poderia complementar e/ou ser a chave
para os seus”, destacou Rivaldo.
Em 2009 o projeto Rede de Pesquisa em Dengue no Estado de
Mato Grosso do Sul foi aprovado pelo edital nº 10/2008 e contou com
financiamento pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e
Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect), o qual possibilitou a articulação
entre as pesquisas sobre dengue e tornou o Estado referência sobre o tema. A
Rede se dividiu em duas linhas: Linha 1 - Epidemiologia da dengue, do
vetor e impacto sócio-econômico de sua ocorrência em Mato Grosso do Sul
e Linha 2 - Desenvolvimento de novas abordagens para o controle do vetor e
manejo clínico da doença.
“Embora, em um primeiro momento todos os projetos tenham
sido distribuídos em uma das duas linhas de pesquisa, houve uma flexibilidade
dos pesquisadores em migrar de linhas, de acordo com o desenvolvimento do plano
de trabalho, ou usufruir dos resultados de outras pesquisas que não da sua
linha para complementar os seus estudos”, afirmou o professor. Dessa forma
buscou-se sanar o fato de as pesquisas serem isoladas, tornando-as colaborativas.
Rivaldo explica que a Rede proporcionou a elevação dos
recursos humanos formados pelas pesquisas, por exemplo, citando que – até o
fechamento desta matéria – foram concluídas oito dissertações de mestrado, nove
estavam em andamento, uma tese de doutorado foi concluída e duas estavam em
fase final.
“Todos os estudos da Rede fizeram com que Mato Grosso do
Sul fosse reconhecido como referência em saber sobre a dengue. A prova disso é
que fomos chamados para contribuir com um guia sobre diagnóstico, tratamento,
controle e prevenção da dengue, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e para
participar de uma pesquisa, com pesquisadores de outros 18 países, com o
objetivo de avaliar a nova classificação de dengue proposta pela OMS. Mais
recentemente ainda fomos convidados a testar a vacina da doença”, destaca o
professor, que é infectologista e doutor em Medicina Tropical.
A primeira dose da vacina contra a dengue será testada
amanhã (28/10), no Hospital Dia, no Hospital Universitário da UFMS, em crianças
estudantes da rede pública cadastradas em projetos da Rede. Segundo Rivaldo
algumas doses serão placebo, ou seja, um fármaco ou procedimento inerte que
pode ou não apresentar efeitos terapêuticos, estes devido aos efeitos
fisiológicos da crença do paciente de que está a sendo tratado. Sendo que a
outra parte do grupo de crianças participantes da pesquisa receberá a dose real
da vacina. Os efeitos serão estudados por três anos.
Os subprojetos da Rede são de variados assuntos
relacionados à dengue. Todos têm a preocupação de contribuir para que cada vez
mais se entenda sobre a doença. Em 2010 foram notificados 75 mil casos,
sendo 45 mil destes em
Campo Grande, com 40 óbitos em Mato Grosso do Sul,
segundo o professor.
É estudado, por exemplo, a percepção do risco da dengue
pela população, em que se constata que a sociedade entende os riscos da doença,
que ela pode levar à morte, mas que se preocupam em matar o mosquito
transmissor – o Aedes aegypti – “e não o mais correto, que seria evitar a
proliferação do ovo do mosquito, impedindo que nasçam mais transmissores”,
alerta o pesquisador, que também destaca que alguns estudos da Rede objetivam
obter formulações larvicidas nano e microencapsuladas, que futuramente podem
ser disponibilizadas para o controle do mosquito transmissor.
Segundo Rivaldo, a dengue é um problema gravíssimo para a
Saúde pública, pois mensura-se que foram gastos R$ 1,2 bilhão em 2010. “As
pessoas infectadas ficam dias de cama, sem trabalhar, isso é um custo para o
Brasil, pois o tratamento é relativamente barato, com hidratação e poucos
medicamentos”, constata Rivaldo que complementa que esses valores só tendem a
aumentar enquanto o País não resolve o contexto que auxilia na proliferação da
dengue:
“1. Resolver o abastecimento de água: pessoas que não têm
acesso à água encanada armazenam em locais sem tampa, deixando água parada e o
habitat perfeito para a reprodução do mosquito;
2. Manter uma coleta regular dos resíduos sólidos;
3. Manter terrenos baldios limpos: principalmente aqueles
que ficam muitos anos parados devido à especulação imobiliária;
4. Resolver a segurança pública: por exemplo, em alguns
lugares controlados pelo tráfico de drogas, como algumas favelas, os agentes de
Saúde e o poder público não conseguem entrar e fazer uma ação contínua e
efetiva;
5. Ampliar o acesso à educação: para que problemas
relacionados com a adesão às medidas preventivas propostas pelo poder público
sejam superados”.
A Secretaria de Estado de Saúde, com a contribuição das
secretarias municipais de Saúde de vinte municípios, mantém
mensalmente atualizados os dados sobre os casos de dengue no Estado, com o
objetivo de subsidiar o panorama da doença e ser um instrumento de auxílio para
a elaboração de estratégias, ações e interlocuções entre as equipes técnicas.
Veja o último boletim e mais informações em: www.saude.ms.gov.br .
“É fundamental a continuação dos esforços para o
fortalecimento da Ciência e Tecnologia em Mato Grosso do Sul,
por exemplo, com o financiamento de redes de pesquisa, como a Fundect fez
acreditando em nosso projeto, pois isso contribui não só para o controle da
doença e, talvez, para a descoberta da vacina, mas também para nortear as
políticas públicas e otimizar os investimentos no combate da dengue”, finaliza
Rivaldo Venâncio.
Segundo o diretor-presidente da Fundect, Marcelo Turine,
essa pesquisa faz parte do Programa Pesquisa para o Sistema Único de Saúde
(PPSUS), criado em 2003 no Brasil e desde então desenvolvido no Estado de Mato
Grosso do Sul. Este programa é fundamental para incentivar as pesquisas em
problemas básicos da saúde e com isso colaborar para o aumento da qualidade de
vida de nossa sociedade.
Demais dados e informações sobre esse e outros projetos
financiados pela Fundect, você encontra em: www.fundect.ms.gov.br
.
Saiba mais:
O que é dengue?
Dengue
é uma doença infecciosa aguda e possui quatro sorotipos (DENV-1, DENV-2,
DENV-3 e DENV-4). É transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti
infectado.
Quais são os sintomas?
- Febre alta com duração de 2 a 7 dias
- Dor de cabeça
- Dor no corpo e nas juntas
- Dor atrás dos olhos
- Manchas vermelhas pelo corpo
- Dores abdominais
- Vômitos
Para
diagnóstico e tratamento eficaz, consulte sempre um médico.