A comunidade científica vive a expectativa do anúncio de que
pesquisadores podem ter encontrado evidências que comprovem a existência da
chamada "partícula de Deus" – o bóson de Higgs.
Ela representa um mecanismo ainda não comprovado, que daria massa
a todas as outras partículas. O bóson de Higgs é uma "partícula
fundamental", uma das peças básicas da construção do universo. Ele também
é considerado o pedaço que falta na principal teoria da física de partículas -
conhecida como Modelo Padrão - que descreve como partículas e forças interagem.
Rumores sobre os resultados das pesquisas mais recentes começaram
a circular semanas antes do anúncio, que está previsto para a tarde desta
terça-feira, em um encontro científico.
É possível que os cientistas consigam somente fazer insinuações a
respeito da identificação do bóson de Higgs, já que as equipes de pesquisa
ainda não teriam dados suficientes para anunciar uma descoberta formal.
No entanto, a maioria dos físicos afirma que não encontrar a
partícula pode ser tão interessante quanto encontrá-la no lugar onde a teoria prevê
que ela esteja.
"Se não a encontrarmos será - de certo modo - ainda mais
excitante, mas de qualquer modo, é uma situação onde só temos a ganhar",
disse o físico de partículas Stefan Soldner-Rembold, da Universidade de
Manchester, na Grã-Bretanha.
"Se a encontrarmos, saberemos que a teoria está completa, mas
ainda há mais coisas a pesquisar. Se não a encontrarmos, saberemos que há algo
que ainda não entendemos."
Mecanismo do universo
Encontrar o bóson de Higgs é o principal objetivo do Grande
Colisor de Hádrons (GCH), na Suíça, um projeto que custou US$ 10 bilhões (R$ 18
bilhões).
Atualmente, o colisor abriga dois projetos - Atlas e CMS - que
procuram separadamente pela partícula.
A excitação é grande entre os físicos que trabalham no laboratório
Cern, a organização baseada em Genebra que opera o GCH, por causa de
insinuações de que os pesquisadores podem ter isolado o bóson.
"É um momento fantástico, você consegue sentir que as pessoas
estão entusiasmadas", disse à BBC Christoph Rembser, pesquisador sênior do
experimento Atlas.
Segundo os cientistas, quando o universo esfriou após o Big Bang,
uma força invisível conhecida como o campo de Higgs teria se formado juntamente
com o bóson de Higgs.
É este campo que dá massa às partículas fundamentais que formam os
átomos. Sem ele, estas partículas passariam pelo cosmos na velocidade da luz e
não conseguiriam se aglutinar.
O modo como o campo de Higgs trabalha foi associado ao modo como
fotógrafos e repórteres se reúnem ao redor de uma celebridade. O grupo de pessoas
são "atraídos" fortemente pela celebridade e criam resistência ao seu
movimento em um salão, por exemplo.
Dessa maneira, eles dão "massa" àquela celebridade,
tornando sua movimentação mais lenta.
"A questão do (bóson de) Higgs é que sempre dizemos que
precisamos dele para explicar a massa, mas sua importância real é que
precisamos dele para entender o universo", disse à BBC Tara Shears, física
especializada em partículas, da Universidade de Liverpool.
"Descobrir a partícula confirma que a abordagem que estamos
usando para entender o universo está correta."
Estas preocupações motivam o esforço do Cern para destacar o bóson
de Higgs e outros fenômenos usando o GCH.
O experimento acontece em um túnel circular de 27 quilômetros de
comprimento repleto de imãs que "conduzem" partículas de prótons pelo
imenso anel.
Em certos pontos do trajeto, o colisor faz com que os feixes de
prótons se choquem uns com os outros a uma velocidade próxima à velocidade da
luz, para que seja possível detectar outras novas partículas nos resultados da
colisão.
Caça à partícula
O Atlas e o CMS procuram sinais da partícula entre bilhões de
colisões que ocorrem em cada experimento do GCH. Evidências da existência dela
apareceriam como pequenos "picos" nos gráficos dos físicos.
Rumores que circulam entre os cientistas dizem que os dois
projetos encontraram sinais do bóson de Higgs com níveis entre 2,5 e 3,5 sigma
de certeza.
Estes números representam uma medida da probabilidade de que estes
sinais tenham acontecido por acaso, e não por um fenômeno físico.
Se estes números forem anunciados nesta terça-feira, o Cern não
poderá fazer uma reivindicação definitiva da descoberta.
Três sigmas são considerados como "observação" de um
fenômeno e cinco são considerados o limiar de uma descoberta.
O diretor geral do Cern, Rolf-Dieter-Heuer, disse à equipe de
funcionários da organização, por e-mail, que o anúncio não seria conclusivo.
O "sim" ou "não" definitivo para o
bóson de Higgs só deverá acontecer em 2012.