A
tentativa de evitar uma covardia contra um morador de rua que estava passando
mal e era agredido por cinco jovens quase terminou em tragédia para o estudante
de Desenho Industrial Vítor Suarez Cunha, de 21 anos, na madrugada de ontem. Ao
tentar proteger o homem, que estava sendo chutado pelos agressores, na Praça
Jerusalém, no bairro Jardim Guanabara, Ilha do Governador, o estudante foi
espancado quase até a morte. Ele está internado com diversas fraturas na face
em uma clínica particular.
Vítor
conversava na Praia da Bica com o estudante Kléber Carlos Silva, de 20 anos e
uma outra amiga, quando percebeu que cinco rapazes começavam a chutar um
morador de rua no centro da praça. O episódio aconteceu por volta de 1h. Esse
mesmo homem, segundo ele, já havia sido atendido por uma ambulância do Samu às
22h, no mesmo local onde houve a agressão.
Ao se
aproximar de um dos agressores, pedindo que ele parasse, foi hostilizado, dando
início à confusão. Vítor contou que, depois disso, começou a levar chutes e
socos no rosto, quando caiu no chão. O estudante disse que só não sofreu danos
maiores porque Kléber se jogou sobre ele no momento em que era agredido.
— Eu
ainda reconheci um deles, e disse que a gente estava sempre por lá. Disse que
era uma covardia o que eles estavam fazendo. Ainda tentei defender meu rosto
com o braço. Até que acabei desacordando — contou.
Testemunhas
Vítor
sofreu diversas fraturas na face e terá que ser submetido a uma cirurgia. Ao
prestar depoimento na 37ª DP (Ilha do Governador), o amigo do estudante
reconheceu dois dos agressores, revelando seus nomes aos policiais. Os cinco
seriam de classe média.
Os dois
suspeitos foram ouvidos ontem mesmo na delegacia. Eles negaram as agressões ao
morador de rua, mas um deles admitiu que se envolveu em uma briga com Vítor. O
delegado Deoclécio Francisco de Assis Filho disse que um terceiro agressor também
foi identificado e dever ser ouvido nas próximas horas. Outras testemunhas
estão sendo localizadas ouvidas.
Para
amigo, cenas absurdas e inesquecíveis
"Eu
não consigo esquecer aquela cena. Aquilo não sai da minha cabeça de jeito
nenhum. Pareciam urubus em cima de uma carne podre". Kleber Carlos Silva
de Souza viu, durante cinco minutos, o amigo Vítor sendo espancado por cinco
jovens, enquanto um sexto impedia que ele se aproximasse muito. Momentos que
ele descreve como totalmente absurdos e inesquecíveis .
— Meu
amigo foi agredido sem piedade na minha frente. E eu ainda me sinto culpado,
pensando se não poderia ter feito algo mais — lamentou.
Foi de
Kleber a iniciativa de conversar com um dos supostos agressores de Vitor para
pedir que ele e os amigos parassem de chutar um mendigo que estava alcolizado e
passava mal no local. Como resposta do jovem, ele ouviu que, no dia seguinte, o
pai dele iria caminhar pela praia e certamente não ia querer se deparar com o
morador de rua.
— O que
ele disse foi inacreditável. Tentei resolver apenas com palavras, e acabou se
transformando em algo incontrolável. Já não gosto de ver eles (moradores de
rua) sofrendo, vivendo na rua, ainda mais apanhando de pessoas que têm um vida
muito mais favorável — contou Kleber.
Mãe
de vítima diz que briga são frequentes
Trabalhando
como assistente social, a mãe do estudante, Regina Celi Suarez, de 50 anos,
disse que sempre ensinou seus filhos a tratarem bem a população de rua porque,
segundo ela, os mesmos não são culpados por estarem vivendo naquela situação.
— Meu
ensinamento acabou fazendo com que meu filho, ao tentar se fazer de justiceiro,
fosse espancado brutalmente — lamentou.
Regina
mora desde que nasceu na Ilha do Governador e disse que são frequentes confusões
envolvendo jovens no bairro Jardim Guanabara, onde fica sua casa.