Simone Alves da Silva testou positivo em antidoping no Troféu
Brasil do ano passado, recebeu uma suspensão provisória e, há 11 dias, foi
absolvida por três votos a dois.
Para conseguir se livrar da pena, a fundista alegou falhas na
coleta para o exame. A atleta baiana afirma que sua amostra B estava com o
número de identificação errado e que deixou a sala do antidoping carregando a
urina usada para o exame, deixando o pote no chão para dar uma entrevista ao
canal Sportv.
A versão é rebatida pela Confederação Brasileira de Atletismo
(CBAt), que confia em uma pena de quatro anos para a fundista.
“Eu não tinha conseguido urinar a quantidade pedida para o
antidoping, mas aí vieram me chamar três vezes para dar entrevista. Fui
liberada para sair da sala com a amostra de urina na mão, coberta com um papel,
e deixei no chão quando cheguei na área de entrevista. Fiquei uns 15 minutos lá
e de onde estava não conseguia ver a amostra, então não sei se houve
contaminação”, alegou Simone.
O fato foi usado pela defesa da fundista no julgamento realizado
no Conselho Disciplinar Nacional (CDN) no dia 23 de janeiro. O estafe da atleta
mostrou o vídeo do Sportv em que a repórter Joanna de Assis, em uma entrada ao
vivo, diz que precisou “tirar” a fundista do exame antidoping para participar
do programa "Tá na Área".
“A responsável pelo antidoping no Troféu Brasil [Ana Carolina
Siqueira] me liberou para sair com a urina, porque eu tinha feito só 70 ml, e
não os 150 ml que eram necessários. Antes, ela tinha dito que eu não podia
sair, mas, com tanta insistência do pessoal me chamando para a entrevista, ela
liberou e me acompanhou até o local, que inclusive já tinha sido aberto ao
público. Tinha um monte de gente passando por lá. Deixei minha urina no chão,
no canto, perto de uma grade. Eu achei que tudo estava certo, já que a
responsável pelo antidoping autorizou tudo isso”, contou Simone.
No entanto, a CBAt assegura que tais argumentos não invalidam o
resultado do teste. Agente oficial da entidade para o assunto, o advogado
Thomaz Mattos de Paiva defende que, em caso de irregularidade na coleta, a
falha deveria ter sido apontada por Simone no dia do teste.
“Ela é responsável por sua amostra. Se no formulário que assinou
após a coleta a atleta não atestou nenhuma irregularidade, não pode reclamar
agora. Por que ela não falou isso antes? Por que só depois do resultado
positivo ela contestou a coleta? A partir do momento que assinou o formulário e
não apontou nenhuma irregularidade, ela não pode usar isso em seu benefício
agora”, sustentou.
"Substância é injetável"
“Além disso, a substância encontrada no teste antidoping dela é
injetável. Não existe isso de haver uma contaminação direta na urina. E sobre a
identificação da amostra B, ela tem que acionar o laboratório do Canadá
responsável pelo teste, um dos laboratórios mais respeitados do mundo”, emendou
Thomaz Mattos de Paiva.
Responsável pelo controle antidoping no Troféu Brasil do ano
passado, Ana Carolina Siqueira não confirmou nem negou que acompanhou Simone na
entrevista após a interrupção alegada pela atleta.
“O que posso dizer é que tudo que foi feito aquele dia seguiu os
padrões da Wada [Agência Mundial Antidoping], da notificação à coleta. Não
posso falar mais nada sobre esse controle”, afirmou ela.
As duas amostras de Simone Alves tiveram resultado positivo para
eritropoetina recombinante (EPO), hormônio que aumenta o número de glóbulos
vermelhos no sangue, o que acelera a oxigenação dos músculos, melhora a
resistência e retarda o cansaço.
Livre da suspensão preventiva, Simone Alves está liberada para
competir, mas sabe que a CBAt irá recorrer no Superior Tribunal de Justiça
Desportiva (STJD) pedindo sua suspensão em uma instância superior. A entidade
avisou, no dia do julgamento no CDN, que levaria o caso ao STJD e, como Simone
é reincidente, projeta uma suspensão de até quatro anos.
A fundista quebrou recordes sul-americanos dos 5.000 m e dos 10.000 m no Troféu Brasil
do ano passado, realizado em agosto, no estádio Ícaro de Castro Mello, no
Ibirapuera, em São Paulo.
Na sequência, ela não competiu no Mundial de Daegu (Coreia do Sul)
alegando uma lesão. “A lesão foi constatada em ressonância magnética feita pelo
Dr. Cristiano Laurino, que era da minha ex-equipe [BM&F] e também da CBAt.
Quatro dias depois participei de outra prova, fiz outro antidoping e deu
negativo”, completou Simone.