Sábado, 04 de Fevereiro de 2012         09h43        240
"Minha história na F-1 acabará, mas este dia não chegou", diz Barrichello
Folha/AQ
Se ainda restava alguma esperança para Rubens Barrichello, 39, estar no grid da F-1 neste ano ela chegou ao fim ontem, com o anúncio da nanica Hispania de que o indiano Narain Karthikeyan ocupará o último cockpit que estava sem dono na categoria.

Mas para o piloto brasileiro, que correu os dois últimos anos pela Williams e há duas semanas perdeu a vaga para Bruno Senna, sua história na F-1 ainda não terminou.

"Meu futuro está em aberto. Sei que um dia minha história vai acabar, mas este dia ainda não chegou", afirmou Barrichello à Folha ontem, um dia após chegar dos EUA, onde participou de três dias de testes com um carro da Indy.

"Sou sempre otimista e agora estou numa boa", completou o piloto, que ainda disse ter ficado muito triste ao saber que a Williams não o manteria por mais um ano.

Folha - Que tal testar na Indy?

Rubens Barrichello - O teste começou meio sem intenção de fazer muita coisa. Claro que a equipe pensou no retorno de mídia que podia ter e eu também queria conhecer o ambiente da Indy e estar com meu amigo Tony [Kanaan, campeão em 2004]. Mas foi muito mais envolvente do que eu estava esperando, acabei virando mais rápido do que imaginava e ainda fiquei meio dia a mais testando. As coisas foram acontecendo.

Para quem está acostumado à F-1, a Indy parece ser mais “rústica”. Qual a maior diferença? Acho que o que mais estranhei foi andar pela primeira vez em 19 anos sem cobertor de pneu. Você vai para a pista com o pneu frio e se vira para esquentar. A tocada do carro não é muito diferente, o motor é parecido, mas é turbo e neste ano os freios são de carbono, muito semelhantes aos da F-1. Claro que o carro é mais pesado, mas é divertido.

E como te receberam por lá? Me trataram como novidade e encontrei todos os pilotos. Eu sempre fui uma exceção na F-1 porque sempre falei com todos, mas fiquei com a impressão de que as pessoas na Indy têm um convívio melhor do que na F-1.

Recebeu convite para correr? A equipe realmente gostou de mim e perguntou se eu tinha interesse em ficar. Agora vamos tentar viabilizar isso e eu preciso tomar uma decisão.

Você sempre disse que a Silvana, sua mulher, havia lhe proibido de ir para a Indy. Se depender só de você... Olha, em casa nós somos maioria [risos]. O Dudu e o Fefê [Eduardo e Fernando, seus filhos] também votam. Recebo mensagens de muita gente que diz que eu já mostrei tudo que podia, que é hora de parar, que já ganhei muito dinheiro. Honestamente, se eu corresse por dinheiro, já teria deixado a F-1 há muito tempo. O meu barato é velocidade, é a disputa. Minha questão não é financeira ou tem a ver com perigo, porque perigo a gente corre quando sai de casa. Mas ainda não está nada definido. Se tudo calhar direitinho, seria um prazer guiar no mesmo time do Tony, mesmo porque acho que ainda tenho muito a aprender. Na Indy tem a questão das bandeiras amarelas, a classificação...

Como você soube da decisão da Williams? Fui avisado no dia em que eles anunciaram o Bruno, mas um pouco mais cedo.

Falou com o Bruno depois? Sim, ele me ligou um pouco sem jeito. Mas eu expliquei para ele que minha briga não era com ele e sim com a equipe e que era uma pena dois amigos lutarem pela mesma vaga, mas quem saía ganhando com isso era o Brasil.

Chegou a cogitar procurar a Hispania depois disso, já que ainda havia uma vaga? Eu queria estar na F-1 de uma forma competitiva e não em qualquer situação. Não acho que eu tenha que fechar a porta. Ela está aberta, e vimos que o [Kimi] Raikkonen voltou, o [Michael] Schumacher voltou. Sou otimista e sei que velocidade não me falta.

O que sentiu quando soube que estava fora da F-1? O sentimento sem dúvida foi de tristeza. Foi um momento que eu não esperava. Os engenheiros sempre me falavam coisas positivas, então foi bem triste, foi chato. Não gostei de como a coisa foi tratada, de uma maneira muito fria. Mas, duas horas depois, eu estava na mesa com as crianças e eles me falavam: “A Williams já vinha ruim, talvez não fosse bom mesmo continuar”. Então foi bom eles me mostrarem que existe um outro caminho.

Você guarda alguma mágoa, algum ressentimento destes 19 anos que esteve na F-1? Não. Vivi 19 anos de muito orgulho. Tive momentos ótimos e momentos bons. E os ruins me fizeram aprender. Se pudesse mudar alguma coisa, não mudaria nada.

Te chateia saber que o Schumacher estará correndo e ainda pode bater seu recorde de mais corridas disputadas? Não. Ele é um competidor como qualquer outro. Honestamente, nem sei de quantas corridas ele precisa para bater meu recorde, mas também não é o melhor que já consegui na vida. Estive na F-1 lutando para ser campeão, e o tempo que estive lá foi pela coisa gostosa que sempre foi estar lá. Hoje na F-1 já não basta só dedicação.

Quando foi mais feliz na F-1? Tive 19 anos muito felizes. Mas, depois de quatro meses desempregado, sentar numa Brawn em 2009 foi uma época que me deu muita alegria.

 

 

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