O deputado estadual Laerte Tetila (PT) e o ex-deputado federal João
Grandão (PT) viraram réus na ação sobre a Máfia dos Sanguessugas, que
superfaturava a compra de ambulâncias, custeadas com recurso do governo
federal. Em Mato Grosso do Sul, cinco prefeituras foram denunciadas pelo
MPF (Ministério Público Federal): Dourados, Douradina, Batayporã,
Ivinhema e Eldorado.
À época das denúncias à Justiça Federal, o esquema, também conhecido
como Máfia das Ambulância, causou prejuízo de quase um milhão aos cofres
públicos. O maior desvio – de R$ 284 mil – foi em Dourados, município
administrado por Laerte Tetila entre os anos de 2001 e 2008. No último
dia 30 de janeiro, a Justiça Federal aceitou a ação contra o
ex-prefeito, o ex-deputado federal e mais 17 pessoas.
Conforme o processo, em 2001, a prefeitura de Dourados firmou
convênio com o Ministério da Saúde para compra de quatro ambulâncias
para serem utilizadas pelo SUS (Sistema Único de Saúde). No convênio, a
União repassaria R$ 96 mil, com contrapartida de R$ 9.600 pela
prefeitura.
De acordo com relatório da CGU (Controladoria Geral da União), foram
encontradas irregularidades no processo licitatório de compra de duas
ambulâncias, como superfaturamento dos preços e direcionamento. A ação
chegou à Justiça Federal em 20 de novembro de 2009, quando foi
determinado bloqueio de bens. Laerte Tetila foi eleito deputado estadual
em 2011. Já João Grandão teve a vida eleitoral sepultada pelo
escândalo.
Os denunciados – Além do ex-prefeito e do
ex-deputado, foram denunciados Paulo Cesar dos Santos Figueiredo (que
foi secretário de Saúde), David Lourenço (então secretário de Fazenda e
que no ano passado foi demitido do comando do Ibama), Jean Henrique Davi
Rodrigues, Neidivaldo Francisco Medice, Loreci Gottschalk Nolasco,
Rosely Debesa da Silva.
Além de Darci Jose Vedoin, Cleia Maria Trevisan Vedoin, Luiz Antonio
Trevisan Vedoin, Alessandra Trevisan Vedoin, Helen Paula Duarte Cirineu
Vedoin, Maria Loedir de Jesus Lara, Rita de Cassia Rodrigues de Jesus,
Aristoteles Gomes Leal Neto, Susete Leal Ottoni, Sinomar Martins
Camargo, Maria Estela da Silva e João Batista dos Santos.
Defesa – Advogado do ex-prefeito Laerte Tetila e de
David Lourenço, Valeriano Fontoura nega as denúncias de superfaturamento
e direcionamento da licitação. “Foi aberto processo licitatório para
compra de quatro ambulâncias, mas o valor foi tão baixo que a empresa
vencedora não conseguiu entregar dois veículos”, afirma.
Na sequencia, a prefeitura rescindiu o contrato e abriu nova
licitação, que não teve interessados. “Então, a prefeitura fez a compra
direto da Fiat, dois veículos Doblôs”, salienta.
Quando ao ex-prefeito, a defesa argumenta que ele não participou dos
processos de licitação, pois os secretários municipais eram ordenadores
de despesa. Já David Lourenço responde somente ao pedido de indenização.
A ação pede condenação por improbidade, perda de função pública e
devolução de dinheiro.
Municípios – Em Ivinhema, a ação do MPF tramita
desde 2009, com decretação de indisponibilidade de bens. Em Batayporã, a
Justiça acatou a denúncia em setembro do ano passado. A prefeitura
pagou R$ 60.400 à empresa Planam por uma ambulância, enquanto o valor de
mercado era de R$ 40.770. Em Eldorado, foi decretada o bloqueio de
bens dos envolvidos,
O escândalo - Em 2002, o Ministério Público Federal
descobriu um esquema de fraudes envolvendo recursos do Fundo Nacional de
Saúde através do direcionamento de licitações para aquisição de
veículos e materiais hospitalares, todos oriundos de emendas
parlamentares apresentadas à Comissão Mista de Orçamento do Congresso
Nacional. A prática ocorria em diversos estados do país.
Em 4 de maio de 2006, o caso ganhou repercussão nacional com a
Operação Sanguessuga, deflagrada pela Polícia Federal. A investigação
mostrou que a quadrilha negociava com assessores de parlamentares a
liberação de emendas individuais no Orçamento da União para que fossem
destinadas aos municípios envolvidos no esquema.
Com recursos garantidos o grupo manipulava as licitações, usado
empresas de fachada. Os preços eram superfaturados em até 120% dos
valores de mercado.
O esquema - Num primeiro momento, era feito o
contato com os prefeitos para saber o interesse deles em adquirir uma
unidade móvel de saúde sem passar pelos trâmites usuais.
Com a anuência do prefeito, começava a fase de obtenção de recursos
financeiros. A quadrilha contatava deputados federais, senadores e os
assessores, que preparavam emendas parlamentares ao Orçamento Geral da
União, para a aquisição das ambulâncias.
A terceira fase tratava da confecção dos projetos e formalização dos
convênios com os municípios, autorizando a transferência dos recursos
federais. A empresa que fornecia as unidades móveis era a Planam
Comércio e Representação Ltda., que pertencia à família Vedoin, a
principal operadora do esquema.
A quarta fase se caracterizava pela fraude às licitações municipais,
com direcionamentos e superfaturamentos. Na quinta e última fase, o
recurso desviado era distribuído entre os empresários, lobistas, agentes
públicos e políticos.