
A época do ano em que os casos de arboviroses, como dengue e chikungunya, aumentam vai de janeiro a maio. A expectativa é de que o número de casos caia a partir do início de junho. Mesmo assim, infectologistas alertam que a doença causa efeitos de longo prazo e que o El Niño pode gerar um novo pico antes do fim deste ano.
O Brasil fechou o mês de maio com 48.868 casos prováveis de chikungunya — 12.619 deles em Mato Grosso do Sul, segundo dados do Ministério da Saúde. Assim, o Estado concentra mais de um quarto (25,8%) dos casos da doença registrados no país. Vale lembrar que os números devem subir ainda mais nas próximas duas semanas, conforme as secretarias de saúde computarem as informações no sistema. As mortes por chikungunya também bateram recorde neste ano. Mato Grosso do Sul chega a 21 óbitos pela doença, concentrando quase dois terços — cerca de 63% — das mortes registradas no Brasil. Caem os casos, segue o alerta
A sazonalidade da chikungunya está relacionada à presença do mosquito Aedes aegypti e às condições climáticas favoráveis à proliferação dele, explica Andyane Tetila, médica infectologista do HU/UFGD (Hospital Universitário da Universidade Federal de Grande Dourados). Segundo a especialista, a entrada no período mais seco e com temperaturas mais amenas geralmente contribui para reduzir a transmissão. No entanto, isso não significa que o risco tenha terminado apenas com a chegada de junho. Ou seja, cuidados de prevenção devem seguir firmes até o fim do ano.
“Em Dourados e em outras regiões de MS, a expectativa é de desaceleração gradual do número de novos casos, mas ainda podem ocorrer transmissões residuais e surtos localizados, especialmente em áreas com alta infestação do Aedes e grande quantidade de pessoas suscetíveis”, diz Andyane Tetila. Novo pico em dezembro?
O infectologista Júlio Croda, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), concorda que os casos devem cair a partir de junho. No entanto, ele alerta que o El Niño pode causar um novo pico da doença, mas fora de época, por volta de dezembro. O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Isso muda a circulação atmosférica global e altera o padrão de chuvas e temperaturas. Normalmente, o fenômeno dura entre 9 e 18 meses, podendo começar de forma fraca e ganhar intensidade ao longo do tempo. Assim, Croda espera que Mato Grosso do Sul registre alto número de casos em 2027, com maior circulação do vírus a partir de dezembro deste ano. “Aumento de temperatura está associado à maior replicação do mosquito. Não só chikungunya, mas dengue também deve circular com mais intensidade”, diz o especialista. A infectologista Andyane Tetila reforça que temperaturas elevadas aceleram o ciclo de vida do mosquito e favorecem a replicação viral. “Entretanto, o impacto final depende da combinação de diversos fatores, como volume e distribuição das chuvas, condições ambientais, saneamento e ações de controle vetorial”, pondera. Ou seja, para a especialista, o clima é um fator importante e deve ser considerado, mas não atua isoladamente na determinação da ocorrência de epidemias.
Tendência similar ao ano passado
Em 2025, os casos de chikungunya iniciaram a alta histórica em Mato Grosso do Sul, culminando na epidemia registrada neste ano. Dados do Ministério da Saúde mostram que o número de casos começou a subir entre janeiro e fevereiro. Em março e abril de 2025, os casos subiram de 2,1 mil para 2,6 mil, até alcançarem o pico de 3 mil em maio. Nos meses seguintes, os casos caíram e ficaram entre 350 e 250 até dezembro. Assim, o número de registros foi de 246 em dezembro para 603 em janeiro de 2026. Nos meses seguintes, os casos explodiram: 998 em fevereiro; 3 mil em março; e 5,3 mil em abril. Os números de maio ainda são contabilizados. Ou seja, a tendência é de que o número de casos caia a partir deste mês (junho de 2026), assim como ocorreu no ano passado. No entanto, o El Niño pode aumentar os registros mais uma vez neste ano até dezembro.
Sequelas severas
Além disso, o impacto da chikungunya não se encerra quando diminuem os novos casos. Cerca de metade dos pacientes evoluem para as fases pós-aguda ou crônica, segundo o Ministério da Saúde. Eles sentem dores persistentes nas articulações por anos ou meses, que limitam as capacidades motoras e afastam do trabalho. “A redução dos casos não significa o fim do problema. A chikungunya continua produzindo impacto na saúde por muitos meses após a infecção”, afirma a infectologista Andyane Tetila. A médica explica que a doença é diferente da dengue, por exemplo. “Ela não vem e passa, suas consequências perduram e ficam.”
Por isso, segundo a infectologista, o sistema de saúde precisa mudar o foco da resposta epidemiológica para a assistência aos pacientes com sequelas. Em cidades com epidemia de chikungunya, milhares de pessoas podem desenvolver dor e rigidez persistente nas articulações. A infectologista Andyane Tetila cita ações que o Poder Público deve realizar para o combate às sequelas após o período de aumento dos casos:
- Capacitação da Atenção Primária para o manejo dessas fases;
- Ampliação do acesso à fisioterapia e reabilitação;
- Suporte multiprofissional quando necessário;
- Garantia de acesso aos medicamentos recomendados; e
- Definição de fluxos para encaminhamento dos casos mais complexos para especialistas.
“O impacto da doença não é medido apenas pelo número de novos casos, mas também pela carga de incapacidade, afastamentos do trabalho e redução da qualidade de vida que ela pode produzir por longos períodos”, conclui a especialista.
Dourados lidera mortes no Estado
Dourados segue como o epicentro da doença em Mato Grosso do Sul, com 13 mortes confirmadas e mais de 4,4 mil casos. Sozinho, o município responde por 39,4% de todas as mortes por chikungunya registradas no Brasil em 2026 e por 61,9% dos óbitos contabilizados em Mato Grosso do Sul. Na sequência, aparecem Bonito e Jardim, com dois óbitos cada. Fátima do Sul, Guia Lopes da Laguna, Douradina e Itaporã registraram uma morte cada. A cidade ainda investiga três mortes suspeitas pela doença. A mais recente envolve um homem de 43 anos. Os outros casos em análise são de pacientes com 74 e 71 anos.
Dos 13 óbitos registrados em Dourados, dez foram de indígenas. Entre as vítimas, estão três bebês — de 48 dias, um mês e três meses de idade —, uma criança de 12 anos e nove adultos, a maioria idosos, com idades entre 29 e 82 anos. Antes deste ano, Mato Grosso do Sul havia registrado 24 mortes por chikungunya nos últimos dez anos, sendo 17 em 2025, uma em 2024 e três em 2023 e 2018. Com 21 óbitos confirmados até maio, 2026 já representa 87,5% de todas as mortes registradas no Estado na última década. Como me proteger?
Confira dicas práticas de prevenção, segundo o Ministério da Saúde:
- Mantenha em dia a manutenção das piscinas;
- Estique ao máximo as lonas usadas para cobrir objetos e evitar a formação de poças d’água;
- Guarde garrafas, potes e vasos de cabeça para baixo;
- Descarte garrafas PET e outras embalagens sem uso;
- Coloque areia nos pratos de vasos de planta;
- Guarde pneus em locais cobertos ou descarte-os em borracharias;
- Amarre bem os sacos de lixo;
- Mantenha a caixa d’água, os tonéis e outros reservatórios de água limpos e bem fechados;
- Não acumule sucata e entulho;
- Limpe bem as calhas de casa e as lajes;
- Instale telas nos ralos e mantenha-os sempre limpos;
- Limpe e seque as bandejas de ar-condicionado e geladeira;
- Elimine a água acumulada nos reservatórios dos purificadores de água e das geladeiras.